Através do Éter - Ato II - Locais Esquecidos

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Através do Éter - Ato II - Locais Esquecidos

Mensagem por Sr Nemo em Sab 15 Mar 2014 - 2:01


E então nós continuamos com este projeto. Tenham em mente que ao contrário do primeiro ato, este tópico foi feito enquanto o ato em si estava incompleto, então as atualizações podem demorar um pouco mais.

Para os que estão visitando pela primeira vez:
Primeiro Ato* (Correntes) disponível no Google Drive.
Tópico do primeiro ato caso queira comentar ou prefere ler coisas no formato do fórum...por algum motivo.

Para os que estão retornando mas precisam se lembrar dos eventos de Correntes:
Jonas, capitão do navio etéreo conhecido como Robalo, é vítima de um motim organizado por seu segundo em comando, Mernenger, que procurava usar o navio para encontrar um tesouro escondido em outro ponto da galáxia.

Jonas sobrevive através de uma mistura de sorte e paranoia, e utilizando de uma aliança temporária ele consegue retomar o Robalo. Mernenger morre no processo e o navio é severamente danificado.

Duas semanas depois Jonas se infiltra na prisão de Arcadia para encontrar o presidiário Elijah, que sabe a localização do tesouro. Ele é levado para dentro do Robalo como tripulante temporário para servir de guia ao tesouro quando o navio chegasse á região conhecida como Garganta de Hermes.

Para adquirir recursos para a viagem, o Robalo é levado para Lumiére para realizar um trabalho rápido. No caminho para negociações, Jonas, o tesoureiro Eli e a oficial de segurança Movna são emboscados por Jackie que acreditava que eles trabalhavam para o ex-militar (e antigo comandante de Jonas) Yoshua. Após o confronto, Jackie é presa por autoridades locais e Eli é capturado enquanto afastado de seus companheiros.

Numa interrogação de Jackie, descobre-se que Yoshua tinha se escondido naquele planeta após ser condenado por seus crimes de guerra e planejou aquela emboscada numa tentativa de se vingar contra Jonas. Os três fogem daquela pequena prisão, Movna indo resgatar Eli enquanto Jonas confronta seu antigo mentor.

Após uma discussão e um tiroteio, Jonas é gravemente ferido, mas é salvo por Jackie enquanto Yoshua fugia. Os dois se reúnem com Movna e Eli e fogem do planeta, sabendo que Yoshua não desistiria de matar cada um deles.


Podemos continuar.


*A capa está em má qualidade, infelizmente. Estamos tentando resolver.


Última edição por Sr Nemo em Seg 17 Mar 2014 - 2:25, editado 1 vez(es)
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Re: Através do Éter - Ato II - Locais Esquecidos

Mensagem por Sr Nemo em Sab 15 Mar 2014 - 2:11

Para começar, o prefácio do segundo Ato.

Alguém Que Eu Conhecia
Spoiler:

-Ano de 240-

Poucas coisas atormentaram Jonas quanto se tornar capitão.

Ele se encontrava sentado ao balcão de um bar quase vazio, olhando para o copo em suas mãos, de costas para a entrada daquele local e simplesmente torcendo para que ninguém procurasse por ele por algumas horas.

Era o começo do período diurno daquele Porto Lunar, as luzes artificiais do bar ainda estavam se fortalecendo, a dona daquele pequeno local ainda o limpava para mais um dia de serviço, e além do homem sem sobrenome os únicos clientes eram um par em uma mesa afastada.

-O que eles estavam pensando? Eu sou o pior líder que eles poderiam ter escolhido. – Jonas disse, ainda olhando para o copo. – Mernenger era uma escolha melhor... Até Jericó seria um capitão decente. Claro, ele pode ser mais desagradável do que uma serpente do Éter, mas está naquele navio a mais tempo do que todo o resto.

-Senhor, muitos dos que passam por aqui tem o costume de contar histórias sem que ninguém peça por uma. Eu já estou acostumada, mas dê um contexto para a maldita história, ou pelo espere até ficar bêbado pelo amor dos titãs. – Disse a balconista, ajeitando copos e garrafas com seus braços de cobre.

-Com essa atitude eu duvido que você tenha muitos clientes. – Jonas tomou um longo gole de seu copo antes de se debruçar sobre o balcão. – Muito bem: Eu trabalho neste navio, o Robalo. Era um trabalho simples e agradável, fazendo entregas para a União Hominae de um ponto á outro, e as um pouco de comércio próprio. E então piratas atacaram. E não eram piratas comuns quase morrendo de fome, nós não temos tanta sorte assim, mas um navio da frota do Staunen.

-Vocês estavam na Garganta de Hermes?

-Não, felizmente estávamos bem longe daquele local. – O próprio nome da região era o bastante para causar desconforto em Jonas. Assim como muitos sobreviventes da guerra, nunca mais ver a Garganta era um de seus objetivos de vida. – Nosso querido capitão se cansou da vida de Viajante, aceitou suborno de um capitão pirata e quando menos esperamos fomos emboscados por um navio criminoso em pleno território da União.

-Mas vocês escaparam.

-Não. Me expulse se parecer mentira, mas eu e o Mernenger... Ele era o cozinheiro do navio, antes que peça por mais contexto. Nós dois distribuímos armas entre os tripulantes e fizemos um contra ataque. Eu ajudei as trop—Digo, a tripulação durante a luta enquanto ele atirava o antigo capitão para fora do navio. Quando a fumaça começou a abaixar começamos a contar as perdas. O segundo em comando foi morto com uma bala entre os olhos e o capitão estava sufocando em algum local do grande vaio, e como é tradição nesta situação a tripulação se reuniu para votar em um novo capitão.


-Entendo. Como você teve mais visibilidade durante o conflito eles decidem que você é competente o bastante para o trabalho.

-Você é esperta, seja lá o quanto te paguem não deve ser o bastante.

-Eu sou a dona deste estabelecimento.

-Merecido. – Jonas respondeu antes de outro gole, esvaziando o copo. – Mas como os danos no navio e tantas perdas, tivemos que parar neste Porto antes de confirmarmos meu posto oficialmente. Ainda tenho algumas horas antes de decidir se aceito o cargo ou continuo como oficial de segurança.

-Não que eu te considere apto para o trabalho, mas o que há de errado em ser capitão de seu próprio navio?

-Eu sou o que há de errado. Alguns anos atrás eu percebi que só era competente em três coisas: seguir ordens, jogos de tarô e sobreviver a tiroteios. Liderar um navio por conta própria e ser responsável pela tripulação inteira? Não está na lista.

Jonas imediatamente fez um sinal para que reenchessem o copo.

-Não é cedo demais para ficar bêbado? – A mulher dos braços metálicos disse enquanto abria uma garrafa e enchia o copo com a bebida anil.

-É preciso de muito álcool para me afetar. Ultimamente eu consigo beber dez copos antes
de sentir qualquer coisa.

-Se você diz. – A atendente disse antes de se abaixar atrás do balcão, procurando por mais garrafas e copos.

O possível capitão do Robalo também se abaixou, levantando uma perna de suas calças para coçar sua canela, com cuidado para não tocar na Erva-de-Viajante plantada em sua perna. Fazia três anos que Jonas usava aquela planta constantemente, mas ainda não estava acostumado com a coceira que ela causava.

Este não era o único motivo para ele ter se abaixado.

Em uma mesa afastada as duas pessoas discutiam entre si, ambas familiares para Jonas de alguma maneira que ele não conseguia entender. Um homem estava apoiado sobre a mesa e analisando um pergaminho sobre ela. Ele vestia um casaco marrom e um chapéu de três pontas, enquanto que a mulher sentada com um copo de água em mãos não possuía não possuía nada particularmente familiar, mas ela lembrava alguém importante para o viajante do Éter, embora que ele não soubesse quem.

Desde que o tripulante do Robalo entrou naquele local e viu os dois uma sensação de nostalgia o assombrava, como se apenas um mínimo detalhe fosse necessário para que tudo fizesse sentido.

-Você poderia simplesmente recusar. – Uma voz vinda detrás do balcão o trouxe de volta ao presente.

-O que? – Ele respondeu surpreso, fingindo que estava simplesmente se coçando.

-Ninguém pode te forçar a tomar controle do navio. Você pode simplesmente dizer que não quer o posto. – Ele continuou enquanto colocava frascos e garrafas em suas prateleiras. – Peça desculpas, recomende alguém melhor para o trabalho, ameace desertar o navio se for necessário.

O tripulante do Robalo permaneceu em silêncio, olhando fixamente para o copo á sua frente.

-Eu... – Foi a única coisa que conseguiu dizer por alguns segundos. – Eu acho que você tem razão. Eles vão se decepcionar, mas... Eu acho que vai ser melhor para eles.

Após esvaziar e reencher outro copo, Jonas começou a planejar o que diria para seus companheiros, como explicaria sua incapacidade de liderar e então passaria o comando para Mernenger. Este era tecnicamente apenas o cozinheiro do navio e tinha suas excentricidades, mas uma década de experiência no Robalo e saberia como guia-lo.

Jonas sentia como se esta fosse a pior escolha que poderia fazer.

Os dois estranhos se levantaram e se apressaram para fora do bar enquanto sua dona continuou com a trabalhar. O homem sem sobrenome continuou pensando no futuro.

-Quando eu era criança esta era parecia a melhor profissão do mundo. – Jonas disse em um tom baixo demais para a atendente ouvir, como se falasse com o copo. - Os navios paravam na cidade mais próxima... A única cidade próxima, na verdade, e toda vez que via um deles voando por cima da fazenda... Aquilo era a coisa mais bonita da galáxia.

Assim como esperado, o copo não respondeu.

-Acho que é por isto que queria entrar no exército. – Ele continuou. - Viajar entre as estrelas, visitar outros planetas e ficar a centenas de Nós de distância do meu... Isto e eles tinham armas.

O Sr. Nada levantou o copo para mais próximo de sua face, podendo ver claramente o reflexo no vidro; Seus óculos de proteção azuis quase desapareciam em meio á bebida da mesma cor e em seu casaco branco ainda sobravam manchas de sangue, que com sorte ninguém perceberia naquele horário escuro.

-Talvez eu nem abandonasse os Filhos se me deixassem continuar em um navio. – Com sua mão ele começou a balançar suavemente o copo, o líquido em seu interior girando em minúsculas ondas. – Isto e se eu não tivesse encontrado aquele sujeito que tentou fugi—FILHO DE UMA PISTOLA.

O grito repentino de Jonas espantou a atendente. Ela quase derrubou os vidros em sua mão enquanto se aproximava da arma de fogo escondida sob o balcão.

-Me desculpe, coisas importantes. – O viajante do Éter disse enquanto se levantava. Ele arrancou um pequeno saco de pó de ouro de seu cinto e o jogou por cima do balcão. – Você fez um ótimo trabalho e merece uma autopromoção. –Gritou enquanto corria para fora do bar antes de ouvir qualquer objeção.

Placas de metal e tábuas de madeira formavam os prédios e o chão que os separava dos mecanismos daquele Porto-Lunar: Encanamentos, motores, aquecedores, Runas tempestuosas, armazéns e tudo o mais necessário para que aquela vila sobrevivesse flutuando no Éter, á centenas de milhares de quilômetros do planeta mais próximo.

Todo o porto estava envolvido em penumbra, edifícios distantes eram apenas silhuetas e sombras escondiam todos os cantos e becos. Enquanto as luzes do chão e das paredes ainda recarregavam suas energias a iluminação vinha do céu estrelado, cortado por uma linha branca reluzente conhecida simplesmente como corrente 32.

O possível capitão do Robalo cruzou a rua metálica até ver e então alcançar aquele que finalmente havia reconhecido. Ele foi forçado a parar quando lhe apontaram uma arma.

O homem apontava uma pistola para Jonas com uma mão trêmula, havia uma expressão inquieta em seu rosto enquanto esperava pela reação do viajante do Éter. Daquela distância podia se ver o galho crescendo de sua testa escondido pela aba do chapéu triangular.

-Eli Aros, não apenas você está senil como nem consegue usar uma arma direito. – Jonas respondeu com as mãos para cima, percebendo que ainda tinha o copo em mãos e havia derramado metade do conteúdo sobre seu casaco. – Estou realmente decepcionado.

-Saber meu nome completo não vai me intimidar. – O ex-corsário disse tentando esconder sua surpresa, quando a pessoa ao seu lado calmamente abaixou a pistola com a palma de sua mão..

-Diga quem é você e como conhece Eli. – Ela disse.

-Não me diga que não me reconhece. – O viajante do Éter abaixou seus óculos de proteção, deixando-os de repouso em seu pescoço e revelando seus cansados olhos marrons. – Sou eu, o idiota da jaqueta de ferro.

-Comandante Jonas? – O Hominae Flora estava claramente espantado, parcialmente pela coincidência de reencontrar aquela pessoa naquele local e desta ainda estar viva.

-Agora é apenas tripulante Jonas. Quando a poeira começou a abaixar depois da guerra fui para o endereço que você enviou e consegui um novo emprego.

-Eu... Bem... – Eli disse enquanto guardava a pistola no coldre em suas calças. – Me desculpe por isto eu...

-Sem problemas. – Jonas já havia passado por situações semelhantes o bastante para saber que era melhor não insistir no assunto. – Eu consegui um bom trabalho como marinheiro, minhas dívidas com a união estão pagas e a comida é decente. A segurança por outro lado decepciona.

-Heh, é bom saber. – O senhor Aros tentava manter um sorriso amigável em seu rosto, quase disfarçando a desconfiança em seus olhos enquanto procurava por alguém escondido nas sombras ao redor. – Eu estou um pouco apressado agora, pode nos acompanhar?

-Claro, claro. – Os três começaram a andar apressadamente pela rua, com passos apressados e coisas semelhantes. Ele se virou para a pessoa do poncho negro ao lado. – E você é?

-Movna. – Ela se apresentou antes de se curvar para frente com um de seus braços curvado á sua frente, de forma breve o bastante á não atrasar seus passos, e o viajante do Éter respondeu o gesto com o braço oposto. – Eli tem de chegar ás docas logo, desculpe não podermos falar muito.

-Sem problemas, os últimos tempos foram entediantes. – Jonas teve de guardar todas as suas perguntas sobre o porquê de alguém das tribos Agnae ter uma tatuagem Etérita em seu rosto, uma lua crescente bronzeada ao redor de seu olho, e se concentrou no que perguntaria para o amigo que ele não via há quatro anos.

-Como é seu novo contratador? Alguém decente desta vez? – Eli Aros disse antes que o possível capitão pensasse em algo.

-Eu... O nosso capitão anterior era alguém decente. Serviu bem, nos tratava com o mínimo de respeito e não cometemos muitos crimes. Ele poderia competir ao titulo de chefe menos horrendo que eu já tive.

-Era? E quem está no posto agora?

-Para resumir tudo ele está fora de serviço, algo comum no grande vazio e a tripulação ainda está decidindo o novo capitão. Enquanto isto eu estou esperando e experimentando os bares. – Respondeu antes de esvaziar o resto do copo em um último gole, se perguntando o que iria fazer com ele. – E você, o que o grande bucaneiro Eli Aros fez nos últimos anos?

-Bucaneiro? Bah, eu só era bom com documentos e ábacos. Desde que eu... – Ele se desviou de uma das poucas pessoas vagando as ruas naquela hora. – Bem, desde que eu abandonei a minha antiga tripulação eu tenho tentado a sorte com meu próprio negócio com navios mercantis e exportação.

-Eu estou impressionado. Anos de trabalho e ainda limpo o convés toda semana, mas você já é bem sucedido.

-Não, eu não tive tanta sorte assim. – Eli disse como se estivesse revelando a morte de um alguém para seus parentes próximos. – Você ouviu falar daquele incidente em Arcadia?

-Ouvi boatos. Ataques de insurgentes, certo?

-E os navios que eu havia contratado foram perdidos na explosão.

Jonas estava prestes a pedir desculpas por aquilo, antes de lembrar que aquela era uma daquelas situações raras pelas quais ele não tinha qualquer culpa.

-Pêsames. – O viajante sem sobrenome disse.

-Não precisa se preocupar, eu já estou me recuperando. – O ex-bucaneiro parou momentaneamente, voltando a andar logo antes de lhe perguntarem o que aconteceu. – Mas eu acho que você poderia me ajudar.

Jonas apenas levantou suas sobrancelhas como demonstração de curiosidade. Sua reação imediata seria negar o pedido e ignorar qualquer insistência, mas Eli teria de ser uma exceção.

-Seu navio está aqui neste porto, e um de transporte ainda por cima... – O senhor Aros gesticulava enquanto falava para ter certeza de que seu amigo estava acompanhando.

-Vocês querem que meu navio leve alguma entrega? – O homem sem sobrenome quis se corrigir e dizer “nosso”, mas iria apenas chamar atenção para seu erro.

-Nada tão complicado, apenas transporte para mim e minha parceira até o Porto mais próximo.

-Mais simples do que eu esperava. – Jonas disse enquanto concordava com um sinal de cabeça. – Se aguentar o frio nós podemos fazer isto.

-Ótimo. Se nós pudermos ir para lá imediatamente será muit-- - O ex-bucaneiro foi interrompido quando Movna segurou o seu ombro e o de Jonas. Os três frearam no meio da rua quase deserta, o pequeno lago artificial da doca e seus navios sempre iluminados já podiam ser vistos no final do caminho escuro.

Apesar do rosto de Movna ser parcialmente coberto pela gola de seu poncho, era claro que ela olhava para a carroça abandonada frente á uma das lojas. Nenhum animal puxava o veículo, mas este ainda estava cheio de caixotes e sacos cheios de grãos.

-Emboscada, vamos por outra rua. – Ela sussurrou e Eli concordou com um movimento de cabeça. Enquanto os dois tentavam se desviar do caminho de forma casual o tripulante do Robalo observava uma figura encostada no veículo de madeira, imóvel e quase inseparável da penumbra. Apesar de seus olhos cansados Jonas conseguiu ver minúsculas runas prateadas debaixo da carroça, seu brilho tênue mostrando a presença de uma arma escondida naquele local.

-Cascos de... – Começou a dizer, mas foi incapaz de lembrar o nome do titã equino. Jonas se virou para a mesma direção que a Agnae.

Um assovio violento cortou o ar e então o copo se partiu em pedaços.

Estilhaços de vidro voaram pelo ar, cortando seu rosto e perfurando sua orelha.

Suas pernas queriam correr para longe e sua mão começou a alcançar o coldre escondido sob seu casaco. A mente conseguiu manter controle e Jonas permaneceu parado, erguendo os braços para cima.

De onde estava podia-se ver um atirador sobre o telhado de uma cabana, á menos de vinte metros de distância e com um rifle de caça em mãos, de onde a cabeça do viajante do Éter era um alvo fácil.

Ele vestia um casaco cinzento escuro e cobrindo seu rosto um lenço da mesma cor.

O som de botas no metal mostrava que o indivíduo se levantava da carroça e se aproximava pelas costas de Jonas. Eli e Movna tomavam cobertura atrás de um grupo de barris logo debaixo do atirador.

Houve mais tiros, desta vez vindos por detrás do tripulante do Robalo e atingindo os barris e os objetos ao redor deles. Água começou a escorrer pelos buracos na madeira, mas ninguém pareceu ser atingido.

A figura se aproximou lentamente pelas costas de Jonas, que através dos sons dos passos tentou determinar a sua posição.

Seu cérebro latejava de cansaço e sangue começava a escorrer em direção ao seu olho desprotegido. Ainda sim, conseguiu calcular que o atirador oculto estava á alguns metros de distância.

Longe o bastante para que o viajante do Éter não pudesse atingi-lo com nenhum golpe, perto o suficiente para garantir uma morte certa com o próximo tiro.

-Ei, bonsai! – Ela gritou por detrás de Jonas. – Nós não sabemos quem é este, mas se você não se entregar nós iremos explodir sua cabeça.

O tempo se passou lenta e dolorosamente enquanto se esperava uma resposta do senhor Aros, ainda escondido e sem dar um sinal de vida.

-Pensem por um momento, você realmente quer atirar em um agente da União? – Finalmente respondeu. – Sem sequer saber por que ele está aqui?

De costas o casaco branco era igual á qualquer outra vestimenta da União Hominae. Jonas torcia para que o atirador no teto não notasse as óbvias mudanças e emblemas arrancados na frente do casaco.

-Vocês já estão sendo caçados pela Guarda de Hélios. – Eli continuou. – Apenas de ameaça-lo vocês já estão garantindo um ataque ao Porto inteiro.

-Primeiro um agente e agora ele é um oficial? – Ela sussurrou para si mesma antes de gritar para o outro atirador. – Veja se ele tem alguma insígnia de posto.

O homem em cima do telhado apontou seu rifle diretamente para o viajante do Éter e olhou pela lente.

Neste momento Jonas viu a Agnae em cima de um dos barris, agarrando a borda do telhado e se puxando para cima. Ele resolveu não esperar pelos resultados e virou bruscamente para trás.

A atiradora se vestia da mesma forma que o outro e tinha uma pistola em mãos. Antes que esta atirasse Jonas ergueu um braço levemente para trás e então arremessou a metade restante de seu copo.

O objeto acertou o ombro dela, se partindo em centenas de estilhaços e tirando seu equilíbrio momentaneamente. O tripulante do Robalo aproveitou aquele momento para se aproximar e em resposta ela tentou atirar nele a queima roupa.

As runas de raiz na base da arma sentiram a ordem mental para disparar e fizeram com que as runas metálicas pelo seu cano começassem a impulsionar a bala.

Jonas ergueu uma mão, segurou a base da arma e se concentrou em visualizar a munição completamente inerte.

As runas metálicas no cano brilharam intensamente conduzindo energias de um titã ferroso. Rachaduras se formaram pela superfície do objeto, mas não houve um tiro.

O homem sem sobrenome aproveitou o momento de surpresa, agarrou o braço que segurava a arma, o virou em direção á sua atacante e parou de se concentrar.

O disparo que se seguiu atingiu a atiradora abaixo de seu ombro. A armadura de Argila diminui maior parte do impacto, mas daquela distância a força foi suficiente para jogá-la desacordada no chão.

Houve o som de algo pesado atingindo o chão. Jonas se virou para trás novamente e viu o outro atirador caído no chão, se encolhendo de dor e no limite da consciência. Movna caiu ao lado e se levantou imediatamente, retirando o tubo de munição do rifle de caça e atirando-o para longe antes de jogar a arma no chão.

Eli se levantou de seu esconderijo e andou em direção aos dois.

-Explicações. – Jonas exigiu enquanto tentava esfregar o sangue que escorria de sua para longe de seu olho. – Agora.

-Eu garanto que você não precisa se preocupar. – Eli Aros tentou explicar, palmas erguidas numa tentativa de acalmar o viajante do Éter. – Eu tive alguns inconvenientes com negócios passados. Você se lembra dos navios que eu perdi?

O tripulante do Robalo concordou com um sinal de cabeça irritado.

-Bem, eles estavam sendo financiados por um homem chamado Yaakov Sarvais...

-Eu adivinho o resto. Ele é o líder de uma gangue local e agora todos eles estão atrás de você para pagar a dívida. – Apesar de falar com um tom baixo, a raiva escorria entre as palavras do viajante sem sobrenome.

-Infelizmente você está certo. Mas em minha defesa eu não sabia que o senhor Sarvais era um cri--

O Hominae Flora foi interrompido pelas várias balas que atingira pela esquerda. Ele caiu no chão de metal empoeirado.

Pela rua, á trinta metros de distância, se aproximava um ser humano alto magrelo com as mesmas vestimentas dos outros atacantes, quase indistinto das sombras. Sua cabeça era oval, sua pele cinzenta e seus olhos eram duas esferas completamente brancas, distinto de orelhas, boca ou qualquer detalhe facial além de suas sobrancelhas.

Aquela figura levava uma espingarda de madeira negra e metal prateado, as runas férricas pelo cano eram preenchidas com pedras ametistas que melhoravam a condução de energias titânicas.

Jonas retirou uma pistola de seu casaco, feita de plástico mantido inteiro apenas com o uso de fita adesiva, e tentou mirar no terceiro assaltante.

Com a diferença entre as armas e a distância o tripulante do Robalo tinha mais chances de ter sua cabeça perfurada por esferas de metal do que atingir seu inimigo.

Jonas abaixou seu braço e apontou a arma para a cabeça do atirador caído no chão.

O homem da espingarda continuou se aproximando, mas desta vez com passos mais lentos, alternando sua mira entre o viajante do Éter e a Agnae, esta agachada ao lado do senhor Aros e verificando seu estado.

Eli ainda estava vivo graças á armadura de argila escondida sob sua camisa. Mas ainda estava inconsciente, ferido e possivelmente sangrando internamente.

O homem do casaco branco ordenou mentalmente que sua arma atirasse ao mesmo tempo em que impediu o disparo, fazendo que ela também emitisse luz prateada por suas runas e começasse a rachar, ameaçando quebrar em pedaços a qualquer momento, mas deixando suas intenções de atirar ainda mais claras.

-Ei, eu tive um dia ruim e tem sangue no meu olho. Eu não tenho paciência para lidar com você. – Jonas gritou enquanto torcia que sua arma continuasse inteira por mais alguns minutos. – Chegue mais perto e vou matar os dois.

-Eu quero o bastardo do Eli vivo, ele me deve dinheiro. Mas você? Um desconhecido completo. – O homem cinzento gritou de volta, finalmente parando, mas ainda mirando sua espingarda. – Se não sair da minha frente você e a ruiva não vão sair vivos desta rua.

A mão do tripulante do Robalo estava tremendo com mais intensidade. A adrenalina e o estresse dos últimos dias tinha desgastado seu corpo demais. Ele sentia como se seu braço fosse quebrar antes da pistola.

-Espere, você é Yaakov? – Jonas gritou com mais curiosidade em sua voz do que raiva.

-Talvez. –O homem cinzento apertou seus olhos enquanto observava o viajante do Éter mais atentamente. – Achando que pode me matar e terminar com tudo de uma vez?

-Não. – O viajante do Éter respondeu antes de apagar o brilho de sua arma e guarda-la de volta no coldre, momentos antes desta se fraturar em uma dezena de pedaços. – Nós vamos negociar.

Yaakov permaneceu em completo silêncio, tentando compreender o plano do homem de casaco branco. – Você agrediu e ameaçou dois dos meus guarda-costas. Eu nã—

-Eles estão vivos e sem ferimentos graves, mesmo depois de me emboscarem no meio da rua, você atirar no meu amigo e então me ameaçar. – Jonas interrompeu com um braço aberto em direção aos caídos para enfatizar a mensagem. Com a outra mão ele retirou o pedaço de vidro em sua orelha. – Eu merecia uma recompensa por isto.

Movna aproveitou o pequeno momento de paz e começou a arrastar Eli cuidadosamente para longe dali.

-Veja. – Jonas continuou. – Eu sou apenas um capitão que queria contratar os serviços do senhor Aros e que simplesmente reagiu quando atacado por um bando de pessoas armadas. Vamos resolver isto do jeito certo, ninguém é ferido seriamente e talvez você faça um pouco de lucro.

O ser humano cinzento fechou seus olhos e respirou profundamente antes de abaixar o cano da espingarda para o chão, ainda segurando-a firmemente, e então gritando:

-E o que você teria para negociar?

-Eu sou o dono de um navio neste porto, o Robalo, confira se quiser, e com as mercadorias dele posso pagar as dividas do Eli.

-Ele me custou muito, é difícil pagar esta conta com algo além da cabeça dele.

-Agora mesmo nós temos um navio pirata capturado em estado decente e um carregamento de escamas de titã. Dez caixas no mínimo.

Duas outras pessoas armadas se aproximavam pela rua por trás de Yaakov, com as mesmas vestes que os denunciavam como membros de sua gangue. Ele ergueu uma mão de dedos longos e finos em um sinal para que parassem.

-Muito bem. – Yaakov Sarvais Disse enquanto repousava a espingarda em seu ombro. – Podemos negociar.

*****

-Eu estou vivo! – Eli Aros disse com surpresa.

Era a terceira vez que repetia esta frase no caminho, mas não menos impressionado do que na primeira vez.

-Por algumas horas, logo Mernenger vai nos enforcar quando souber do dinheiro que perdemos. – Jonas disse enquanto lia o pergaminho em suas mãos. O contrato foi escrito detalhadamente com letras pequenas e curvadas e continha pelo menos cinco assinaturas diferentes feitas á pena. – E não se esqueça da dívida horrenda que você tem agora.

Todos os três estavam em meio ás docas daquele porto, cercados por navios repousados entre as vigas de metal ou flutuando em saída do porto. Horas haviam se passado desde o encontro com Sarvais, as tintas locais já estava completamente carregadas e iluminavam o ambiente.

-Hahá, não se preocupe. – Metade do tórax de Eli Aros estava coberto por bandagens e seu braço por um grosso gesso para ajudar a recuperação de vários ossos fraturados. Ainda sim isto não diminuía seu bom humor, embora a anestesia ajudasse. – Apesar deste incidente, eu garanto que tenho muitos contatos úteis e experiência com o mercado. Vocês... Não, nós vamos recuperar este dinheiro em pouco tempo.

-Isto se pessoas enforcadas conseguem fazer negócios. – O capitão do Robalo se virou para Movna, que ainda andava á poucos metros atrás do senhor Aros. – Ei, quando o contrato com Eli acabar o que você acha de um emprego como oficial de segurança? O último abandonou o posto e não era tão competente.

-Se o oficial de segurança tiver um quarto aconchegante eu vou pensar no assunto. – Ela respondeu sua voz mais calma e talvez um pouco alegre desde que o incidente foi resolvido.

-Pode parecer falta de gratidão, mas... – O novo tesoureiro do Robalo começou. – Algumas horas atrás você me disse que era apenas um tripulante do seu navio. Por que escondeu que era capitão?

-Naquele período eu não queria ser capitão. Fingir que era alguém diferente e com menos responsabilidade parecia uma boa ideia.

-Hmmmm. – Eli tinha um pouco de dificuldade em organizar seus pensamentos sob o efeito de medicamentos. – E como eu pus todas as nossas vidas em risco você foi forçado a abandonar este plano. Mais um detalhe em que dificultamos sua vida.

Jonas imediatamente parou de andar, refletindo naquilo enquanto observava os navios ao redor através de seus óculos de proteção. Os dois pararam ao seu lado e esperavam a sua conclusão.

Um pouco mais longe o viajante sem sobrenome encontrou o Robalo. A nau etérea estava repousada nas águas calmas do lago, tripulantes entrando e saindo continuamente pela sua rampa de madeira. Atrás dele um navio pirata um tanto mais desgastado era levado por uma grossa corrente de ferro, um navio que agora pertencia á Yaakov.

Tripulantes reparavam o navio com cuidado, substituindo seu mastro tempestuoso e repintando o seu casco. O nome do navio estava escrito em letras grande e douradas na sua lateral, onde poderia ser visto claramente por observadores enquanto o Robalo cruzar o Éter.

-Não se preocupem. Eu ia mudar de ideia de qualquer jeito.


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Re: Através do Éter - Ato II - Locais Esquecidos

Mensagem por Sr Nemo em Dom 16 Mar 2014 - 13:14

Capítulo 1 - Decisões a Tomar

Spoiler:

                                                        -Ano de 250-
   
Movna acordou de súbito e rapidamente colocou uma faca contra a garganta do invasor.

    -Bom dia Mov. Estão tendo uma reunião importante no quarto do Cap e me pediram para te acordar. - Foi a resposta que teve. De pé ao lado da cama estava Ilsa, uma mulher de cabelos marrons, vestida com uma camisa amarela leve e seu usual colete azul elétrico, os bolsos de seu traje recheados de papeis e mapas. Um de seus cotovelos estava enfaixado por uma gaze manchada de vermelho e havia palidez em seu rosto. Em seu pescoço estava encostada uma arma de aço frio e em seus olhos a curiosidade atenta que poucas pessoas conseguiam manter. - Eu estou começando a achar que você não deveria ter tantas armas em seu quarto.

    Movna respirou profundamente para se acalmar e então guardou a faca em uma das várias bainhas listradas presas á parede ao lado da cama. - Me desculpe Ilsa, mas você deve parar de me acordar repentinamente. Eu não quero ser descuidada algum dia e te ferir. – Disse. Lentamente se acostumava com o mundo das pessoas despertas. Em sua mente tentava remontar todos os acontecimentos do dia anterior.

    -Eu tentei, eu bati na sua porta por algum tempo antes de entrar para ver se você ainda estava viva. E estava viva, claro. Mas então eu chamei seu nome, gritei por algum tempo e só consegui uma resposta quando encostei em você, o que me lembra: Por que você tem tantas armas na parede?

    -Elas são importantes Ilsa, para minha cultura e segurança. - Ela esfregava sua testa enquanto tentava montar lembranças. Movna se lembrava de tudo o que ocorrera no planeta Lumière, de estar viajando de volta ao Robalo a bordo do Escaravelho, a horrível sensação em sua cabeça, o capitão Jonas manchado de sangue, Ilsa e Eli tentando não mostrar preocupação e a mulher de cinzento esperando calmamente pelo fim da viagem. Não conseguindo suportar os efeitos de uma viagem através da área sem gravidade ela desmaiou, acordando brevemente quando chegou ao navio e se dirigindo desajeitada ao seu quarto como um viajante bêbado. Ela desmaiou novamente no instante em que chegou á sua cama. - Me fale mais da reunião enquanto eu me visto adequadamente.

    Ambas estavam em um dos quartos pessoais do Robalo, destinados aos passageiros mais importantes. Um local dotado de um pequeno armário de madeira gasta pelo tempo, uma cama destinada á uma única pessoa e um grande saco de areia pendurado no teto. Diversas roupas, lençóis, armas, estátuas, livros e outros objetos de decoração estavam espalhados pelo chão, qualquer visitante que chegasse teria dificuldade de ver a madeira por baixo deles. A parede era marcada pelas facas decorativas - Mas ainda afiadas -, um espelho e pela pintura de um grandioso titã flamejante. Ela se levantou, ainda sentindo o peso da sonolência em seus ombros, e andou até o espelho.

    -Para começar nós já saímos da estação e estamos parados em uma área vazia longe de qualquer planeta, e de qualquer pirata sujo eu espero. Cap e os outros se reuniram no quarto dele para decidir qual será nosso percurso agora, eu sugeri seguirmos a corrente da barracuda por não terminar em uma área de piratas, mas eles ainda estão pensando no assunto. - Ela cruzou os braços e olhava para cima enquanto se lembrava de qualquer coisa importante que deveria ser citada. O quarto estava claramente iluminado, estando no período diurno artificial do Robalo. - O Cap está bem e já está melhorando, eu tinha certeza de que isto iria acontecer por que a Cécil estava responsável por ele. Eu ficaria mais preocupada com o Lai, ele chegou a ameaçar bater no capitão com um objeto de metal.

    -Ele disse que objeto seria? - Perguntou Movna enquanto examinava sua camisa. Ainda estava vestida com o uniforme de guarda que ela usara para se disfarçar, uma camisa branca de mangas longas marcada pelo logotipo de uma empresa de transporte.
    -Para dizer a verdade, não. Mas para ter certeza eu roubei a estátua de bronze que ficava na mesa. - Disse Ilsa.
    -Eu não me preocuparia, Eli costuma ser mais específico em ameaças sérias. - Para sua surpresa Movna gostava de sua aparência naquele uniforme. Embora estivesse amassado e marcado com gotas de sangue, obviamente inadequado para uma reunião. Ela estava com pressa e decidiu simplesmente vestir seu poncho e seu capacete por cima. - Espere, você simplesmente pegou a estatua ou roubou ela?
    Ilsa balançou os ombros. - Ainda estou decidindo.    
    Movna ignorou o comentário e continuou procurando por seu uniforme Agnae, já com a dúvida e o medo de ter perdido aqueles objetos no Escaravelho ou talvez no próprio Lumiére.
    Até o momento em que Ilsa lhe jogou uma bola de pano, o capacete emplumado enrolado por um poncho cor de areia. O pano e as penas estavam visivelmente amassados, algo que incomodava Movna por serem objetos feitos cuidadosamente á mão, mas ainda sim de aparência aceitável para uma reunião informal. Ela os vestiu rapidamente enquanto a timoneira do Robalo apenas olhava em volta.
    -Eu não quero ser incomoda, mas... O seu quarto é horrivelmente desarrumado. - Disse a mulher de colete azul, mexendo em uma meia jogada em cima da cama.
    -Nós chamamos isto de "caos organizado". - A Agnae respondeu com um tom paciente enquanto colocava o capacete em sua cabeça, cobrindo a parte de cima de sua cabeça, sem bloquear a sua visão. - Pode parecer um local desarrumado para outros, mas para mim todos os objetos estão guardados em um local adequado e prático.
     -Faz sentido, mas como você ainda não encontrou suas botas? – Ilsa disse, apontando para os pés da Agnae cobertos apenas por meias brancas.  
    A mulher do capacete emplumado olhou ao seu redor por alguns momentos, começando a ficar irritada com os atrasos que apareciam e faziam com que deixasse os outros esperando. -Certo, eu prometo lhe explicar o porquê depois, mas agora eu realmente preciso que você me ajude a encontrá-las.
    Em alguns minutos as duas saiam daquele quarto, devidamente calçadas. A timoneira se despediu e se retirou para a sala de onde ela controlava o curso do navio, onde também esperaria por ordens e o novo destino do Robalo. A Agnae andou apressadamente pelos corredores danificados de madeira, passando por trabalhadores do navio ocupados em manter a nau etérea em bom funcionamento, limpando as suas paredes, concertando o sistema de ar ou procurando por falhas em sua estrutura.
    Em momentos, parava em frente á porta do quarto do capitão, tentando escutar por qualquer conversa que poderia ser interrompida por sua entrada. Havia um silêncio profundo. Em sua própria cabeça ela começou a criar imagens pessimistas do que poderia ter causado aquela quietude, como alguma luta que poderia ter acontecido ou um assassino silencioso. Como sempre, aquela nascida sobre a lua crescente apenas respirou profundamente e entrou pela porta.
    Dentro, uma mulher de pé e duas pessoas sentadas em um semicírculo em frente á uma cama, nela estava Jonas completamente quieto, pálido e coberto de faixas, apenas sua respiração mostrando que ele estava vivo. Pendurado ao lado do capitão estava uma bolsa de sangue ligada ao seu braço.
    Uma das pessoas sentadas, o tesoureiro Eli Aros, lhe deu um sinal pedindo por silêncio e lhe ofereceu uma cadeira. Na mesa de escritório atrás dele estavam pratos de sopa exalando vapor. Ela cuidadosamente fez uma saudação, se curvando com um braço em frente ao peito, e se sentou ao lado do Hominae Flora. De pé ao lado de Eli estava uma mulher esguia com cabelos negros amarrados em um rabo-de-cavalo com um avental sujo de sangue seco assim como as luvas de borracha que usava. Era Cecília Harlas que ao contrário do que sua aparência mostrava era violinista do navio. Sentado ao lado dela estava o ex-prisioneiro Elijah Tanoya, quieto e olhando fixamente para o chão, suas mãos - assim como as garras comuns á sua espécie - cobertas por luvas espessas de couro.
    E por algum motivo ele também usava um avental.
    -Jonas? - Movna perguntou enquanto se sentava e pegava uma das tigelas de comida. Parecia que anos haviam se passado desde que tivera sua última refeição.
     Eli começava a formar palavras em resposta quando foi interrompido por Cecília Harlas - Ele já está se recuperando, todas as balas no peito dele foram retiradas e consegui também retirar os fluídos de dentro do pulmão. Com tratamento de lampreia e descanso vai se recuperar completamente em duas semanas. Mas me responda uma coisa... - Dizia calmamente antes de respirar fundo e continuar - O que vocês fizeram com ele em Lumiére? Obviamente tinham pedaços de metal no peito dele, mas também encontrei marcas de queimadura e de uma cirurgia improvisada. Tentaram ver até que ponto vocês conseguiam feri-lo antes de morrer?
    -Hah! - O tesoureiro disse com sarcasmo escorrendo dentre seus dentes. - Ele não precisava de nós para isto. Mas não, ele esteve envolvido em um tiroteio devido á... Bem, ele foi atingido, a senhorita Jackie Darns que estava com ele tentou estancar os sangramentos com um aparelho de fogo que tinha, e segundo me contou ela conseguiu levar o capitão para uma farmácia onde tentaram tratar as feridas.
    -O que aconteceu nesta reunião? - A Agnae perguntou entre colheres de sopa, esperando evitar uma discussão entre os dois. Durante este tempo todo ela mantinha Tanoya em seu campo de visão, atenta á qualquer ação dele. Mas, como fazia desde que o trouxeram da prisão para o Robalo, ele se mantinha quieto e facilmente esquecível.
    -Bem, após Cecília retirar as balas presas nele e a anestesia deixar de fazer efeito, ele nos chamou para cá para decidir nosso próximo destino. -Eli dizia, apontando para um mapa aberto sobre a mesa, no qual havia anotações feitas à pena, marcando duas correntes de Éter próximas (A corrente da barracuda e a 32) e por algum motivo o minúsculo desenho de uma aranha. - Enquanto esperávamos por você, ele insistiu que continuássemos esta caça ao tesouro imbecil, quando claramente devíamos nos afastar daqui e evitarmos chamar atenção até que Yoshua perdesse nosso rastro. Durante a inevitável discussão que se seguiu, enquanto parava para tomar fôlego ele acabou caindo no sono. O capitão realmente precisava descansar então o deixamos assim, mas independente de estar ferido ou em plena saúde eu não posso deixá-lo continuar com esta viagem suicida.
    -Sim, depois de perder tanto sangue ele vai ficar cansado por algum tempo. - Disse Harlas enquanto retirava suas luvas e as jogava em uma lixeira. - Mas... De que caça ao tesouro você está falando?
    Eli Aros congelou, tentando pensar rapidamente em uma resposta, ele havia acidentalmente dado informações que apenas alguns membros da tripulação sabiam sobre a estranha missão do capitão Jonas.
    -Ela precisava saber disto algum dia. - A Agnae Mavrata disse com um tom severo após perceber o descuido do tesoureiro. - Cecília, eu posso te informar sobre tudo depois, mas agora precisamos de foco. Certo?
    -Certo. – A violinista do navio respondeu.
    Movna continuou. - O que já decidiram Eli?
    -Por enquanto, nada de sólido. Ele estava focado em decidir qual corrente de Éter devia seguir enquanto eu tentava convencê-lo a fazer algo sensato.
    Houve então um grito naquele quarto, de uma cansada voz de pânico e surpresa que alarmou a todos. O capitão Jonas estava sentado em sua cama, respirando com a pouca força que podia reunir enquanto uma mancha vermelha crescia em seu peito. Vendo que Eli e Movna haviam se levantado para lhe ajudar, o capitão fez um sinal para que parassem.
    -Eu só tive um pesadelo, nada de perigoso. É melhor não perguntar sobre o que foi - Disse enquanto Cecília procurava por algo em sua maleta. Jonas se encostou contra a parede, voltando a falar quando recuperou totalmente o fôlego. -Eli, onde nós estávamos?
    -Hmmm... - O Senhor Aros voltou a se sentar enquanto coçava o queixo pensativamente. - Eu acho que você estava insistindo em continuarmos nossa viagem suicida atrás de um tesouro possivelmente inexistente, ao invés de tentarmos fugir do militar obsessivo que tenta te matar.
    -Obrigado, vamos aproveitar e continuar de onde--- O capitão respondia antes de ser interrompido por alguém que de quem ele quase havia se esquecido.
    -A pegada de Aquiles existe. Eu a vi. - Elijah Tanoya disse repentinamente, cabeça apoiada sobre seus joelhos e de expressão entediada.
    Eli Aros simplesmente o ignorou. - Já disse isto e vou dizer de novo, Jonas, esta possível pegada não vai se mover. Nós temos que ir para outro local, para território da União Hominae ou até mesmo dos cavaleiros. A Garganta de Hermes é um local sem lei, se continuarmos indo para lá estaremos praticamente pedindo que Yoshua venha atrás de nós.
    -Como Yoshua saberia nossa localização? - A Agnae perguntou.
    -Ele estava infiltrado em uma empresa de transportes, morou nesta região por anos e é o bastardo mais paranóico que eu conheço. - O homem sem sobrenome respondeu. - Ele provavelmente tem contatos por todo o sistema, e tenho certeza de que ele tem algum agente vigiando as correntes de Éter que levam para longe daqui. Seja lá a direção que tomemos, ele vai seguir nosso rastro.
    -E é por isso que temos de ir para algum local para onde ele nunca iria. Nós podemos esperar até que ele desista de nos perseguir. Nós temos tempo para nos preparar. - Eli Aros respondeu.
    -Você conheceu o Yoshua, você sabe que ele nunca desiste. - Havia raiva na voz de Jonas - Nós dois trabalhamos com ele, você sabe as coisas que ele faz para alcançar um inimigo, ele nunca se importou com dano colateral ou quanto tempo tivesse de esperar até que ele estivesse no momento mais frágil. Cascos de titã Eli, ele poderia ter te matado! Apenas por saber alguns segredos burocráticos. O que os guardas teriam feito com você se a Movna não te salvasse?
    Durante momentos desconfortáveis ninguém naquele quarto continuou a falar. O tesoureiro olhava fixamente para frente, braços cruzados sobre seu peito, enquanto a Agnae continuava sua refeição.
    Jonas queria continuar a falar, quando então a violinista retirou um pote de sua maleta, dentro dele uma lampreia-etérea. Uma espécie criada por cientistas humanos para facilitar a recuperação de viajantes do Éter, que muitas vezes tinham de viajar em navios com pouco acesso á recursos e ferramentas médicas.
    -Agora nós já podemos começar o tratamento de cura, o consumo de sangue vai ajudar a sua circulação sanguínea e a saliva da Charlote vai incentivar a regeneração de tecidos. - Disse Cecília Harlas. Com uma pinça de metal, retirou a criatura que se agitava dentro do vidro: Um vertebrado serpentino do tamanho de uma mão humana, vermelho como sangue e dotado de uma cabeça em cada extremidade.
    Cuidadosamente, Harlas aproximou a criatura da mancha de sangue no capitão, onde imediatamente se prendeu com dúzias de dentes enquanto a outra cabeça imediatamente se prendia á jugular.
    -Como vocês conseguem continuar comendo após ver isto? - Disse Jonas, após observar o procedimento com desgosto. Ele já passara por aquele tratamento inúmeras vezes, seja em seus anos no Robalo ou entre os Filhos de Ares, mas ele nunca conseguia se acostumar com aquele animal sugando seu sangue.
    -Cresci entre Agnae, nós tínhamos coisas piores. - Movna respondeu.
    -Heh, já me alimentei e também me divirto com seu sofrimento. - O tesoureiro disse com um pequeno sorriso. – E voltando ao assunto, eu acredito que eu estaria morto... Mesmo assim, ainda é arriscado demais. Nós precisamos de pelo menos um pouco de tempo para nos recuperarmos, financeira e fisicamente.
    Movna terminou de beber o resto de sopa em sua tigela, pela primeira vez em semanas a comida servida naquele navio tinha um gosto decente. - Precisamos de uma semana. - Disse enquanto deslizava a tigela por cima da mesa. - Em cinco dias podemos vender as jóias que Aros roubou, concertar o navio, fortalecer a segurança, cobrir nossos rastros, então usar outro caminho para a Garganta.
    Jonas encarou ambos, pensando no que faria, mas cansado demais para continuar discutindo, principalmente com amigos. Não havia dor, a anestesia estava funcionando, mas respirar era tão difícil como permanecer acordado. Ele queria se deitar e esquecer tudo, para então se levantar e continuar sua vida como se as últimas semanas não tivessem acontecido.

    -Bem, eu disse que tentaria ouvir vocês mais vezes, não disse? - O capitão do Robalo disse enquanto coçava os olhos. - Digam para Ilsa estabelecer curso para a Fortaleza Hospitalar, eles provavelmente já esqueceram daquele acidente depois de tantos anos, mas apenas uma semana, entenderam?

    O senhor Aros se levantou e andou silenciosamente até um cano que saia da parede: Parte de um mecanismo para transmitir sons para outros quartos do Robalo, incluindo a sala de direção onde a timoneira Ilsa provavelmente estava. Quando terminou de enviar a mensagem, onde especificou o percurso e o próximo porto para onde o navio iria "obrigado" foi a resposta que ele recebeu por aquele aparelho.

    O tesoureiro se virou para os outros, ajeitando seu casaco marrom e retirando algumas folhas presas em suas mangas. - Obrigado, Jonas, eu... - Dizia, procurando alguma forma de explicar a importância daquela decisão, impedido pelo seu próprio cansaço.

    -Eu disse que tentaria ouvir mais minha tripulação, não disse? E agora parece que eu tenho a minoria dos votos. - Disse o capitão. Apesar de seu esforço para manter contato visual com seus colegas, seu olhar voltava repetidamente para a lampreia em seu pescoço. - Mas este desvio só vai durar cinco dias, e vou contar cada um deles.

    -São 12 horas de viagem antes de sequer chegarmos á corrente da barracuda. - Disse o tesoureiro.

    -Muito bem, vocês têm cinco dias e meio! Observem como eu resolvo conflitos rapidamente! - Disse o capitão.

    -Agora que resolveram esta questão. - Harlas tentou falar em um tom autoritário, quase chegando a gritar. -Todos nós devemos nos retirar e deixa-lo descansar. Vocês não querem que os ferimentos dele se abram por falar demais, querem?

    A mensagem foi clara, ninguém tinha disposição ou motivos para discordar. Movna se levantou e esperou ao lado da porta enquanto os outros se preparavam, Eli Aros reunia as tigelas vazias de sopa, Cecília organizava sua pequena maleta de ferramentas e Jonas se deitava, tentando encontrar uma posição onde confortável onde ele não esmagasse a lampreia-etérea.

    Momentos depois, os quatro estavam do lado de fora do quarto.

    -Eu deixei um rádio ligado ao lado da cama para ele poder lhes chamar no caso de problemas, mas ainda sim eu recomendo que alguém venha aqui periodicamente para ver as suas condições. – A violinista dizia, fechando silenciosamente a porta. - Eu vou tentar arranjar soro glicosado, mas depois nós iremos discutir sobre este tesouro e o meu aumento por serviços extras. - Ao terminar, se virou e caminhou rapidamente pelo corredor, madeira rangendo sob seus pés.

    -Aumento? Mas nós não... - Eli parou de falar e suspirou desanimadamente. - Heh, eu trato disso depois. Eu vou guardar estas coisas e então vou dormir até ficar exausto. Tenha um bom dia Movna, e obrigado pela ajuda. - Com uma pilha de tigelas em mãos se dirigiu cuidadosamente pelo navio.

    A Agnae olhou para Tanoya, o ex-prisioneiro ainda tinha a mesma expressão neutra usual, tendo de guiá-lo de volta para seus aposentos - O antigo quarto de um ex-tripulante chamado Mernenger - e então teria de retomar seu trabalho, guardar o navio e garantir a segurança de seus tripulantes.  

    -Ele tinha razão, Yoshua nunca vai desistir. - a voz veio de trás da Agnae, junto com o familiar som dos mecanismos de um revolver.

    Resistindo ao impulso de retirar sua faca e tentar desarmar aquela pessoa, a Agnae se virou para trás: lá estava Jackie Darns, membro da Guarda de Hélios, apoiada em uma das paredes de madeira e com sua arma de fogo, Fortiori, em mãos.

    -Jackie. - Disse Movna, pensando em que pergunta fazer em seguida.

    -Bom dia senhora. - Mesmo sem suas distintas vestimentas cinzentas, Darns levou sua mão á altura de sua testa e a ergueu um pouco, como se estivesse levantando o chapéu em cumprimento. - E bom dia Tanoya, obrigado pela boa refeição.

    -Obrigado. - Elijah respondeu para a surpresa de Movna. Ele era um criminoso preso por diversos homicídios em seu planeta natal, e se esperava que um membro de uma organização de caçadores de recompensa tivesse uma reação mais violenta á presença dele no Robalo. O porquê deste mesmo criminoso estar preparando refeições também era algo preocupante. Talvez fosse parte de um disfarce que prepararam para Elijah, ou talvez a fuga de um prisioneiro de Elysium não fosse algo que a Guardiã soubesse. Cada vez mais perguntas surgiam sobre a situação.

    Movna decidiu começar pela mais simples. - O que está fazendo aqui?

    -Eu estava tentando ouvir o que vocês decidiam nesta reunião. - Enquanto falava, Jackie esfregava um pedaço de pano cinza em Fortiori, limpando todas as manchas de poeira e sangue na arma. - Quanto mais eu saber dos acontecimentos deste navio, melhor.

    -Não, por que você está no Robalo?

    -Ninguém te informou? Inúmeras desculpas por isto. - Disse a guardiã. - Como era óbvio que vocês seriam o próximo alvo de Yoshua, decidimos que eu ficaria aqui até resolvermos esta situação.

    A mulher de poncho cor de areia sentiu a raiva surgindo e se intensificando, não pela simples presença da Guardiã de Hélios no Robalo, mas por alguém ter tomado aquela decisão sem sua participação. Ela tentou manter uma expressão estóica, algo em que o capacete cobrindo metade de seu rosto ajudava. - Como, exatamente, chegaram a esta decisão?

    -Há anos eu tenho procurado pelo Yoshua e tentado captura-lo, eu sei como ele pensa e com que tipo de organizações ele lida. Eu sei como ele age e estou preparada para matá-lo quando for necessário. - Darns respondeu, constantemente atenta a limpeza de Fortiori. - Eu o odeio tanto quanto o capitão, então é útil sermos aliados durante algum tempo.

    -Quanto tempo?

    -Quanto for necessário, e mais cinco dias e meio pelo o que eu ouvi. - Jackie disse. - Ou menos, se ele os encontrar antes de estarem preparados.

    -Certo, estou começando a entender. Se for permanecer por aqui, pretende seguir as regras do navio? - Movna disse olhando diretamente para a arma de balas de pólvora.

    -Você fala de Fortiori? Não se preocupe. - Respondeu enquanto fazia um pequeno movimento com a mão, abrindo o tambor da arma e mostrando a falta de qualquer bala dentro. - Eu já tive acidentes o bastante com armas para saber como evitá-los.

    Em um movimento rápido e repentino, a Agnae arrancou a arma das mãos da Guardiã. Jackie entrou momentaneamente em pânico, seus olhos se movendo freneticamente por todo o corredor enquanto seus pés se preparavam para uma fuga, mas então ela parou, esperando pelo o que Movna faria.

    -As regras são simples: todas as armas de fogo são guardadas no depósito. - Disse aquela nascida sob a lua crescente enquanto guardava o revolver em seu cinto. - Pode tê-la de volta com permissão ou em emergência.

    Jackie Darns fechou os olhos e respirou profundamente. - Inúmeras desculpas. Eu não queria infringir as leis do Robalo ou ameaçar sua paz. Eu peço perdão e me retiro.

    -Onde está indo? - A mulher do capacete empenado perguntou em voz alta enquanto a outra se afastava pelos corredores frios. Jackie olhou brevemente para trás e respondeu em voz alta, quase gritando:

    -Eu vou aprender os caminhos do navio. Quero estar pronta para quando Yoshua atacar.

    A Agnae ficou permaneceu quieta, refletindo silenciosamente. Elijah Tanoya já se perguntava se iria sozinho para seu quarto antes de Movna fazer um sinal para segui-la.

    -Por que a Darns te perturba tanto? - O senhor Tanoya disse no meio do caminho, interrompendo o silêncio.

    Mesmo surpreendida com aquele comentário repentino de Elijah, ela demorou responder. - Por que o interesse?

    -Eu matei pessoas em minha vida, algumas inocentes, você age como se eu não fosse uma ameaça. - Parou para ser repreendido em seus próprios pensamentos por estar chamando atenção para si e seu passado. - Ela diz trabalhar para a lei, mas você a confronta imediatamente e insiste em desarmá-la.

    -Eli me informou de você, todas as suas mortes foram feitas com explosivos, que não vai conseguir aqui. Por que você não se preocupa com ela? – Respondeu, esperando conseguir alguma informação de Tanoya e descobrir o que planejava.

    -Estou fingindo ser o cozinheiro daqui, e como minha comida é melhor do que o lixo que serviam a farsa foi fácil. Você faz parte da casta dos Mavrata, a própria Darns mesmo disse ter perdido para você em combate, por que o medo?

    -Jackie simplesmente te contou isto? - Sem perceber, Movna andava mais devagar.

    -Conversamos durante a cirurgia do capitão, sopa sempre deixa as pessoas mais abertas. Ela parecia orgulhosa sobre a história. - Constantemente, Elijah Tanoya possuía uma expressão completamente neutra, e nunca parecia se esforçar para conseguir mantê-la.

    -É difícil acreditar nesta história. Certo, quer saber o meu problema com Jackie? Vi o que ela consegue fazer e ouvi a história do que aconteceu: Um prédio em chamas, guardas mortos e quase capturou Yoshua. A vi ignorar leis e realizar ameaças apenas por seu objetivo. Consigo imaginar o que aconteceria com o navio se entrarmos no caminho dela. - Eles chegaram ao antigo quarto de Mernenger, Movna abriu a porta com uma chave do molho em seu cinto e esperou até Tanoya entrar no local antes de continuar a falar. - Lembre disso, Jackie vai estar aqui se tentar escapar.

    -Fácil, eles não vão parar de me lembrar disto. - O ex-prisioneiro disse enquanto a porta era trancada.

    A Agnae não perdeu tempo e seguiu pelos corredores, passando por tripulantes cujo nome não sabia, mas cuja segurança era seu trabalho manter. O Robalo parecia estava se tornando mais perigoso com o tempo, cada vez mais ameaças apareciam e seus amigos pareciam cada vez mais exaustos.  
   
Os próximos cinco dias seriam longos.  

*****

-Cachalote-
 
 Yoshua Olho-Vermelho se reconstruía, mental e fisicamente.

    Do centro de uma sala de metal, cercado por móveis de madeira, alavancas de metal e através das janelas de metal transparente podiam-se ver as centenas de estrelas do espaço e o planeta Lumiére flutuando no Éter. O homem do olho de rubi e outros 14 tripulantes estavam no encouraçado nomeado como Cachalote. Uma gigantesca belonave construída com grossas placas de ferro que não era usada há mais de uma década, guardada como relíquia em um porto até o dia em que Yoshua precisou dela. Mesmo com a idade e a falta de reparos, poucas modificações foram necessárias para que a Cachalote pudesse viajar novamente pelo Éter.
   
Olho-Vermelho por outro lado não estava em boas condições: Seu braço esquerdo coberto com gesso, assim como sua perna e parte de seu peito, enquanto que seu rosto estava marcado por pequenas queimaduras. Mesmo olhando para suas estrelas, sua mente estava nos acontecimentos das últimas horas, principalmente em suas próprias falhas.

    Yoshua odiava a sí mesmo por ter deixado seu inimigo escapar, mesmo tendo a vantagem da surpresa e numérica; Por ter deixado seu antigo discípulo escapar mesmo tendo-o na mira de uma arma; Por ter baixado a guarda em troca de um discurso egocêntrico e por ter se tornado a imagem de um vilão de ópera.

    Ele tentaria concertar todas as suas falhas, era a única forma de não apenas matar Jonas, mas também todos os traidores em sua lista.

    Sua mão intacta estava mergulhada em um aquário de caranguejos, que beliscavam delicadamente a pele dos dedos. Eram os animais favoritos do ex-comandante, inteligentes, fieis e capazes de se sacrificar quando necessário. Apenas sua presença já ajudava yoshua a se concentrar.

    -Senhor, já terminamos o inventario e estamos prontos para partir. - Jericó era um empregado que perdera o emprego após falhar em manter um refém preso, O que não impediu Yoshua de aceitá-lo em sua navio com falta de tripulantes. - E já podemos seguir o rastro do... Anh...

    -O Robalo, sim. - Yoshua disse com autoridade, sem que a dor de seus ferimentos afetasse sua voz. - Para onde ele está indo?

    -B-bem, segundo seus contatos ele está se dirigindo para a corrente de Éter que leva para a Fortaleza Hospitalaria. Eu acho... Ele vai chegar em pouco mais de dez horas.

    -Aguarde. - Olho-Vermelho mancou até um quadro branco em uma das paredes, havia um mapa do Círculo-Delta anotado em sua superfície e dois nomes de falecidos: Castor e Pollux. A provável localização do Robalo foi anotada. - Entre os envelopes que eu te enviei há um fechado com um selo de cera negra.

    -Achei! O que você quer que eu faça com eles?

    -Procure entre estes papeis por um corsário que trabalhe próximo da corrente 32, e então entre em contato com ele. Em breve você irá receber uma mensagem e alguns documentos que deve enviar para ele.

    -Sim, comandante. – a voz que vinha do cano de mensagens respondeu.

    O homem do olho de rubi voltou ao centro da sala e continuou a observar as estrelas. Até que pudesse corrigir as suas aparentes falhas, Yoshua sabia que não poderia derrotar capitão Jonas em um futuro confronto, mas também sabia a solução simples para este problema:

    Contratar alguém que pudesse.
       
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