A Ultima Libertação (In Game) ANO 1418

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Re: A Ultima Libertação (In Game) ANO 1418

Mensagem por Mamorra em Sex 15 Jan 2016 - 23:30

Em um futuro próximo. Ou não:
Era noite e tudo lá fora estava tranquilo. Aqueles que puderam, passaram aquele tempo restante com suas famílias. Foi uma noite bastante longa, com jantares, abraços, despedidas, promessas...

Um homem acordou durante a madrugada. Estava sem sono. Sabia que teria muito que fazer até o amanhecer e estava preocupado. Mais que isso. Estava com medo. Sempre fora dito que paladinos não sentiam medo, e até aquele instante, Lucian Silloheron achava que era verdade. Mas não naquela noite. Ele tremia feito uma criança acovardada diante do escuro. Sua filha, Melissa, dormia ao lado da mãe, que acordou com a movimentação do Rei-Imperador na cama.

- Terá muito tempo para ficar acordado, Lucian – Disse Shivara – Descanse o máximo que puder.

Dormindo bem próximo da Shivara, estavam duas figuras que só aqueles dias poderiam colocar como reais. As versões adultas da Melissa e de seu filho ainda no ventre da sua rainha, Borandir, passaram os últimos momentos antes da guerra junto com seu pai. Por maiores que fossem as diferenças que Lucian tivesse com a Melissa adulta, ele conseguia ver aquela menininha que sorria para ele enquanto pulava em seu peito, ainda na cama.

- Durma um pouco, minha querida. Vou ver algumas coisas e voltarei em instantes. – Disse ele enquanto se dirigiu a porta.

Caminhou um tempo por um palácio vazio. Em completo silencio. Até mesmo as tochas que deveriam iluminar o lugar estavam apagadas. Lucian lembrou de que liberou todos os empregados do palácio para que pudessem ficar com suas famílias e sorriu triste. Sentiu novamente o peso do que estava em jogo.

Ele saiu do palácio e viu as ruas vazias e pode contemplar o belíssimo espetáculo que Tenebra proporcionava naquela noite. Um manto brilhante estava estampado num limpíssimo céu e apenas ele estava lá para observar. Ele passou um bom tempo observando às estrelas, até que pode ver alguém se mexendo e entrando numa das ruas. Num movimento quase que involuntário, o guerreiro clamou por sua arma, sendo atendido em poucos instantes, enquanto seguia a figura.


Seguiu a pequena figura até uma igreja de Khalmyr, a qual estava entreaberta e com velas acesas. Desconfiado do que aquilo se tratava, o paladino entrou com o Desbravador pronto para começar o combate mais cedo do que imaginara.

Lucian não pôde ver onde a pequena figura encapuzada estava, mas viu um homem ajoelhado perante o altar dedicado ao Deus da Justiça. O homem não parecia orar, mas sim observando algo, ao lado de uma enorme garrafa de bebida quase vazia. Vendo que não se tratava de uma ameaça, o paladino se aproximou vagarosamente do homem.

- Jack?! O que faz aqui? Não tinha uma tonelada de coisas para verificar antes do começo de tudo, como você mesmo disse?

- O que faz aqui, Lucian? – Disse Donovan sem se virar para cumprimentar o amigo – Deveria aproveitar a companhia da sua família. Pode ser a última vez que os vê. Então vá logo. Quero apenas ficar sozinho.

Lucian se aproximou e pode ver uma caixa aberta e um revolver, como ele já havia aprendido o nome com o próprio Jack antes, recoberto de runas. Observando tudo com calma, ele pode ver que o homem que começou tudo por baixo dos panos, que basicamente o colocou na posição em que está, tremia como um soldado verde. O homem que conseguiu fazer com que tanto heróis, quanto vilões, o odiassem, agora estava ali, paralisado como uma criancinha assustada. O Deus Menor do Heroísmo sabia muito bem do que aquilo se tratava.

- Você está bem, Jack? Quer algo para beber? Talvez um copo de leite, ou talvez uma cerveja... – Disse Lucian tentando descontrair.

- Eu prometi, quando reencontrei Mellody e conheci Sarah e Kate, que nunca mais mataria novamente. Que seria o herói que há muito tempo sonhei que seria. Sabe... Sempre sonhei em ser um cavaleiro, um herói que sairia desbravando o mundo e fazendo dele um lugar melhor. Sempre sonhei em ser alguém bem diferente... DISSO!!! – Disse ele apontando para si mesmo – Eu andei por vários mundos, Lucian... Em alguns, fui chamado de herói, mas na maioria não passei de um assassino. Comecei matando por ser o certo, depois começou a ser divertido. No fim, passei a matar sem qualquer sentimento. Cheguei ao ponto de por uma raça próxima a extinção ao seu fim. E então eu caí no mundo da Mellody. Procurei trabalho com a única coisa que eu sabia fazer. Matar. E também naquele mundo eu era bom nisso. Então foi quando eu a encontrei. Sabe aquele soco no estomago que deixa sem ar e sem forças nas pernas? Tomei um desse enquanto ela me prendia. Ela me viu saindo de uma cena de crime e começou a me caçar. Mas como eu não era daquele mundo, ela não achou nada contra mim...

Jack tinha um olhar nostálgico ao contar sua história. Pareceu que ele queria que aqueles dias voltassem. Lucian apenas ouvia a confissão de alguém que não conseguia ser ouvido.

-- Meu amigo... Imagina como fiquei quando a vi... Era idêntica à Lienn. Sabe o que isso significava? Que os Deuses daquele lugar estavam me dando outra chance com ela. E eu iria aproveitar. Ela trabalhava era uma espécie de membro do Protetorado do Reino e namorava um homem que viajava por vários países vendendo coisas. Não foi difícil fazê-la se apaixonar por mim, pois até mesmo os gostos eram extremamente parecidos. Eu pensava que aquele mundo era um mundo espelho a Arton, e por isso que tinha uma “Lienn”. Então ela passou a me ensinar sobre a magia daquele mundo, que era extremamente parecida com os poderes dos Deuses daqui... No fim, eu passei a ver cada detalhe dela. Como ela acordava... Como ela gostava de arrumar seu cabelo... Sua cor favorita... Como gostava de se vestir desleixada para não me deixar com mais cara de besta... O jeito de cozinhar. Como gostava de ficar só olhando o mar, com seus cabelos batendo em meu rosto. O quão gostava de ajudar as pessoas em ambos os empregos dela. Eram tão parecidas, mas tão diferentes, que em pouco tempo, percebi que estava apaixonado por ambas. Eram minhas musas. Sabe?! Aquela que faz você seguir em frente?!

Jack pareceu um garoto ao lembrar-se disso e o próprio Lucian sabia muito bem o que era estar perdidamente apaixonado.

- Eu já quase havia me esquecido de que era uma porra de um assassino e estava estudando para ser um construtor. Sabe... Fazer algo diferente de destruir vidas. Talvez até ajudar a fazê-las melhor... Então ela foi presa por companheiros da Emily. Não tive escolha, se não acabar com tudo o que encontrei lá. Apenas uma mulher sobreviveu a mim e, implorando por sua vida, me deu todo o controle sobre aquela coisa, que depois eu soube que era uma carcaça de um Deus morto. Autoctonia agora me pertencia e eu havia deixado a Mellody em casa, quando ao retornar àquela base, o safado do Nimb apareceu bem na minha frente com a cara mais tranquila do mundo e com um “Você não pertence a esse lugar” me transportou junto com Autoctonia direto para a órbita de Arton... Revoltado, fiz o que todo homem faz quando está puto da vida e não pode resolver o problema... Exatamente! Afoguei-me no bar... Até que um dia eu matei um sujeito, eu nem lembro mais o porquê, na frente da Borboleta de Lena... Bêbado como eu estava, facilmente ela me paralisou e me colocou pra fora, onde a Lienn estava... Linda, forte, imponente, com aquela coisa no olhar que eu amava tanto. Porém havia algo mais. Ela olhava para mim com nojo. Nojo do que eu havia me tornado. E aquela fora a ultima facada. Eu não consigo me lembrar de muito daquele dia, mas o olhar de reprovação dela está estampado na minha cabeça desde então...

- Pra piorar, a própria Lena apareceu e veio com um papo de que eu iria aprender o real significado da Vida e que ela e a Borboleta, iriam ensinar-me. Okuni puxou de um dos seus mantos uma poção roxa e pôs na minha boca e me transformou numa garota, me levando ao Ritual de Perpetuação da Vida, como você já sabe há tempos. Como ela disse, eu realmente aprendi o significado da vida... O resto é história... E agora, quando finalmente tenho alguma sorte na vida, terei que voltar a matar... Irônico, não? Um assassino com medo de voltar a matar. Patético... Mas eu devo estar realmente bêbado, para falar algo assim com alguém... Só quero ficar um pouco quieto. Só isso...

Lucian deixou o amigo sozinho e se encaminhou para a saída da igreja, já tendo certeza de que tudo estava bem. Poucos instantes após ele sair da porta, a figura encapuzada que ele seguiu apareceu bem na sua frente. Era ESUNA, a assistente do Jack. Uma “menininha” bonitinha, mas com partes de metal que lembravam de que ela era um golem. Seu olhar tinha uma angustia que o paladino de Valkaria podia quase que tocar.

A pequena figura agarrou suas mãos, levantou sua cabecinha para poder olhar para o Deus do Heroísmo.

- Lorde Lucian, ainda bem que o encontrei. Minhas diretrizes foram comprometidas. O protocolo “Last Mission” foi acionado. Eu fui comprometida. Não sou mais capaz de cumprir minhas diretrizes.

- Ei! Calma lá, mocinha. Diga-me o que está acontecendo. E que tal de protocolo “Last Mission” é esse?

- Ele... Ele... – A angustia da pequena passou ao desespero.

- Já disse para ter calma... Respire. Se é que você precisa disso... Agora, diga-me. O que está acontecendo?

- O mestre Jack habilitou o protocolo “Last Mission”.

- Certo... Isso eu entendi. E o que isso faz? Você não tem acesso a tudo que o Jack possui?

- Não mais. Ele tirou o meu acesso e o da mamãe. Não podemos mais protegê-lo. Eu acho... Eu acho... Eu acho... Que ele não vai voltar... Por favor, lorde Lucian. Salva o mestre Jack... Salva o meu papai...

- Não se preocupe amiguinha. Seu pai vai voltar pra você. É uma promessa... E eu não quebro minhas promessas.

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Re: A Ultima Libertação (In Game) ANO 1418

Mensagem por Mamorra em Seg 2 Maio 2016 - 10:52

Enquanto isso, em Norm:

Lenneth acordou naquele que era o penúltimo dia de festividades antes do seu casamento com um aperto no coração. O que ocorrera na noite anterior a deixava assustada. Por mais que ela quisesse que seu amado Rei do Deserto fosse até lá e a tomasse na frente de todos, o que aconteceria com a honra do rei Janz e do seu filho? Bielefeld seria mais rechaçada do que já estava sendo e, dessa vez, seria tudo culpa dela. Naquela manhã ela mal conseguiu comer por conta dessa aflição e desceu para ver os espetáculos completamente assustada.

Pouco depois do começo das festividades, ela se viu perdida em seus pensamentos, totalmente alheia ao que ocorria a sua volta. Só voltou a si quando sua prima Julie Janz bateu palmas na sua frente várias vezes, finalmente chamando sua atenção.

-- O que se passa, prima Lenneth? Parece que estás em outro mundo. Sente-se bem? Queres uma água?

-- Nada, querida prima. Só me perdi enquanto via o espetáculo. A apresentação do Primavista está belíssima hoje, não está? – Disse ela tentando desviar do assunto.

-- És uma péssima mentirosa, prima. Você não deve nem saber do que se trata a peça.

-- Sei sim... É de... De... Não importa. Só preciso de descanso, Julie. Não estou acostumada a ser o centro das atenções...

-- Como não gostar do que está havendo? É a sua festa de casamento!! O evento do século!!! Até dá pra sentir a presença do Panteão te abençoando!

-- Eu sei disso, Julie. – Disse Lenneth visivelmente cansada e irritada -- Só que eu preferiria estar à frente de uma parede de escudos, ou seguindo numa carga, do que está aqui, com todo mundo me olhando. Cobiçando que eu cometa um erro. Não parece que nasci para O Jogo, Julie.

-- E se formos dar uma volta para espairecer? Não aceito não como resposta. Se desejares ser um cavaleiro, podes até agir como minha escolta, sir.  

-- Não sou mais um cavaleiro, milady, mas acompanharei tão distinta senhorita nessa caminhada. Vamos? – E as duas gargalharam.

Passaram alguns minutos caminhando pelos jardins do Palácio da Luz e puderam ver vários cavaleiros nos mais diversos afazeres, até que viram uma cena inusitada. Pouco mais distante, puderam ver Kathrine Donovan, filha do seu irmão Jacob, sentada na grama. Seus longos cabelos ruivos dava um belíssimo contraste com seus olhos azuis. Suas vestes, num estilo esquisito, era uma blusa azul que deixava os braços completamente a mostra e usava uma saia na altura dos joelhos também azul, com detalhes em preto. Suas mãos tinham luvas pretas que deixavam os dedos de fora e um par do que pareciam botas pretas. Perto dela estava um cavaleiro, sir Norman Smireas, trajando uma imponente armadura prateada e deixava seus longos cabelos castanhos ao vento, que tentava, em vão, cortejar a garota.

-- Você está me atrapalhando, garoto – As duas garotas puderam ouvir Kathrine falando com sir Norman – Não estou interessada no que você acha que é valentia. Sabe o que eu vejo, senhor Smireas? Um moleque que deve foder com as cabras enquanto as empregadas não dão brecha. Um garotinho que se junta com outros garotinhos para ficar mentindo uns para os outros, dizendo que já se esfregaram com essa ou aquela garota. E, pra piorar, o único seio que já deve ter visto na vida, foi o da mãe, que deu de mamar até os 8 anos. Então, sir, eu já estou entediada demais nesse mundinho atrasado sem ter que ouvir você falar bobagens. Saia daqui. Não sou mãe para ficar dando de mamar à garotinhos.

Quando elas foram chegando, Kathrine deu um fora no pobre rapaz que a fez lembrar-se da sua época como a “Donzela de Ferro”, quando todo mês aparecia um destemido dizendo que iria “domar a potranca brava” e ela riu.

-- Ora, sua... -- O pobre rapaz tomou um belo susto quando viu que Lenneth se aproximava com os punhos cerrados e, após cumprimentar a princesa e a futura rainha, foi embora o mais rápido possível.

-- Milady Kathrine, como estas nessa manhã? – Cumprimentou Lenneth

-- Por favor, nada de “milady”. Prefiro apenas Kate.

-- Está bem, Kate – Disse Julie – O que houve com sir Smireas? Por acaso ele foi grosseiro?

-- Por que os garotos são tão chatos nesse mundo? Acham-se os homens e que basta falarem três ou quatro palavras e nós já arrancaremos a calcinha pela cabeça por eles. Isso é repugnante.

--É assim mesmo – Riu Lenneth – Eu mesma era conhecida por quebrar os dentes de cavaleirinhos assim. Certa vez, quando um merdinha disse que meu problema era a falta de um homem, eu quase arranquei a cabeça dele num soco...
Julie riu. Kate observou as duas rindo e começou a se questionar. “Ambas não estavam já com casamento arranjado? Era estupidez rir da própria desgraça.”

-- Lenneth, pode me responder uma coisa? Por que está se submetendo a isso? Não foi você que quebrou as regras da tal Ordem da Luz e se tornou a primeira cavaleira? Que brigou com todo mundo para fazer o que queria fazer? Que depois mandou todo mundo à merda e criou sua própria ordem de cavalaria?

-- Sim, foi... – Respondeu Lenneth – Por que perguntas?

-- Então por que está fazendo o que eles querem? Justo agora?

-- É uma questão complicada, Kate... Nobres, como lady Julie, você e eu, temos obrigações que vêm junto com nossos títulos. Então, por mais que tentemos nos afastar deles, somos meros escravos das nossas posições. Temos deveres com aqueles que são nossos servos e precisamos fazer o que for possível dentro de nosso alcance para tentar ajudar o nosso povo. É muito mais uma questão política.

-- Ou seja, está abandonando quem você é por pessoas que você não conhece e que não ligam a mínima pra você. Acho isso desprezível... Como acha que será uma boa rainha para esse povo, se não consegue nem ao menos ser honesta com eles e dizer o que sente e o que quer fazer? E, se não consegue nem fazer isso, como será capaz de defender o seu povo numa necessidade? Como poderá olhar nos olhos do seu povo e pedir para que passem por privações pelo bem de todos? – Disse Kate. Pouquíssima coisa a deixava irritada e essa era uma delas. “Ser piolhos e ir pela cabeça dos outros” como ela chamava. – Por mais que você tente disfarçar, qualquer trouxa com dois miolos consegue ver que você não tem a mínima vontade de por essa palhaçada para frente. O certo era você subir lá, mandar todos ali se foderem e sair pela porta da frente. Você é mais útil ao seu povo sendo você mesma!

Julie tomou um susto ao ouvir as palavras da “prima”. Achava aquelas palavras de um grau de tolice que beira a loucura. "Onde já se viu, mandar a família toda ao inferno desse jeito? Só podia ser filha daquele tolo do Jacob Donovan".

-- Quanta tolice! Por mais que de onde tenhas vindo parece não ter modos, milady, onde crescemos fomos ensinadas a ter modos e honrar os mais velhos. Onde já se viu, jogar toda sua linhagem no lixo? Vamos embora daqui, Lenneth. Isso tudo é um absurdo...

-- JULIE!!! – Disse Lenneth – Não fale assim com ela. Os costumes do mundo dela são bem diferentes dos nossos.

-- Não precisa me proteger, Lenneth. Não será uma princesinha que vai me meter medo. Honrar os mais velhos e ter modos é uma coisa, princesa. – Disse Kate em desdém – Outra coisa totalmente diferente é estragar suas vidas por causa da vontade deles. Eu amo e respeito muito a minha mãe, mas se ela acha que vai vir com uma conversa mole dessas para cima de mim, só porque estamos nesse mundo, ela está muito enganada. Eu sei me virar muito bem e não preciso de um cara burro e enlatado para me dar ordens. Quando eu tiver que ter alguém, será para estar ao lado dessa pessoa, não atrás. Entendeu agora, princesa?

-- Por favor, moças. Sinto muito por isso, mas é uma conversa para outra hora. No momento, preciso me encontrar com alguns nobres de Samburdia. Até mais tarde.

Por mais que tivesse acordado com medo, ao ouvir as palavras de uma garota que ela nem conhecia, todo seu temor havia partido. O que havia de temor, era só ansiedade. Ansiedade para a hora que poderia gritar aos quatro ventos o que queria para o resto de sua vida. Ser a dona do coração do Rei do Deserto.

Lenneth e Julie caminhavam pelo Palácio da Luz após o encontro com uma das sobrinhas da Donzela de Ferro. Grande como o lugar era, podiam passar horas andando sem rever a mesma sala, nem reencontrar as mesmas pessoas. A noiva estava tão concentrada em seus pensamentos, a determinação acesa em seu coração como no dia em que se tornara uma paladina, que quase não notou a expressão da prima fechar em um mau humor que poria medo em um Gigante das Tempestades...

-- O que houve, prima? -- Disse Lenneth finalmente prestando atenção ao local -- Quer ir por outro caminho?

-- Não precisa. Não vamos mudar nosso trajeto por conta dessas situações

Agora que prestara atenção, Lenneth podia ouvir uma voz vagamente familiar. Demorou um pouco para reconhecer. Era Alexia Silloheron, prima das duas e foco do ódio pessoal de Julie. Conhecida como A Víbora de Namalkah, ela falava com alguém em tom de palestra, explicando sobre as casas nobres do antigo Reinado, e seus destinos atuais.

No momento, o assunto era a mais nova casa real de Arton Norte, a primeira em muito tempo sem qualquer relação com os antigos refugiados de Lamnor: A Casa de Gilgamesh, na falta de nome melhor, uma vez que ao sul do Rio dos Deuses ele jamais seria admitido como a encarnação de Azgher, como acreditava seu povo no Deserto.

Lenneth seguiu junto com a Julie pelo caminho inteiro até encontrar-se com a Alexia e interlocutora, até então misteriosa. Ao pôr os olhos na menina, viu que era Kathrine Donovan novamente, trajando roupas tão esquisitas quanto antes, só que em tons bem claros.

-- Boa tarde, senhoritas.... Está tudo bem por aqui?

Julie ainda estava com cara de poucos amigos, pois iria de encontro à rameira que colocava seu doce irmão ao mal caminho.

-- Julie, querida... Lenneth, meu amor... – Disse Alexia num tom venenoso -- Que surpresa vê-las aqui. Pensei que estaria comemorando com seu noivo, o Killiah...

Julie sentia o veneno em cada sílaba que Alexia pronunciava. A forma como acentuava o elogio para deixar claro seu verdadeiro desprezo. E por Lenneth, uma pontada de raiva mais contida, menos sutil. Lenneth, obviamente, não escutava absolutamente nada além do dito, como bom Cavaleiro que era... Kathrine, por outro lado, apenas observava, como quem estivera absorta até então com a palestra.

-- Meu irmão anda deveras ocupado, milady. – Respondeu Julie com frieza -- Com tudo o que anda acontecendo, sabe. Ele será coroado no maior casamento da história. E será o maior rei de Bielefeld. Por isso, não tem mais tempo para comemorações...

-- É uma pena... um rei sem comemorações é um rei triste. Eu espero que ele tenha tempo para comemorar depois desta festa. Afinal, um rei sem festa é um rei entediante, e a nobreza odeia o tédio. E quem é o rei, sem seus vassalos?

-- Não é nada disso, querida prima... Ele só não está com tempo para certos tipos de atividades imorais. Killiah tem muito o que fazer entre as suas reuniões e rezar pela sabedoria de Khalmyr. E com uma esposa tão bela e centrada como Lenneth, acredito que meu irmão entrará para a história.

-- A beleza e serenidade de lady Donovan são lendárias em toda Arton. Certamente adicionará como ninguém antes à casa Janz... – Novamente Alexia lançava seu veneno.

Lenneth simplesmente ignorou o debate das duas. Já sabia onde isso daria e não gostava de nada daquelas brigas. Ela seguiu calmamente em direção da Kate e, com um olhar cansado, pôs a mão no seu ombro.

-- Não se espante com isso, Kate. Elas brigam sempre que se encontram. Mas, eu gostaria de saber. Sobre o que estavam conversando?

A menina sorriu, e era evidente uma diferença assombrosa na atitude, mesmo para Lenneth. Era agora, não o olhar de uma jovem com poucas preocupações, mas ao invés, cansado como o de quem tem muitas obrigações, e pouco tempo para si mesma. Havia um brilho diferente, ao mesmo tempo lembrava Lenneth da paixão dos bárbaros pela batalha, e da serenidade com que alguns tamuranianos se sustentavam ante adversidades e conflitos. Era o olhar de quem já esteve em campo de batalha muitas vezes, algo que nem Alexia, nem Julie, eram capazes de compreender, e com sorte nunca seriam, mas Lenneth conhecia bem.

-- Eu não estou espantada, mas obrigada pela preocupação, tia Lenneth. Eu te vi na festa, e meu pai me falou de você. Mas não sou Kathrine, ela é minha irmã. Eu sou sua gêmea, e meu nome é Sarah Fiorentino. Lady Alexia me falava sobre os governantes e suas cortes, um assunto muito relevante para mim.

-- Sinto muito pela confusão, Sarah, mas, por favor, nada de tia. Não sou tão mais velha que você. Me chame apenas de Lenneth... São tantos governantes que nem eu mesma sei todos de cabeça. E, por mais que eu tente, não consigo decorar. Essa parte de nobreza é bastante complicada. Mas é algo que você em breve irá aprender... O que me surpreende é ver quão parecida e quão diferente és de sua irmã -- Disse Lenneth, ainda ignorando as duas briguentas.

Agora se tratava de duas conversas separadas. De um lado, uma tranquila conversa entre Lenneth e Sarah, que conversavam tranquilamente. Do outro, faltava pouco para virar uma batalha campal entre Julie e Alexia.

-- Ainda acredito que uma esposa que fique ao lado de seu rei numa parede de escudos é bem melhor do que uma que, caso ele vá para a guerra, possa fazer algo pelas costas dele, agredindo a sua honra. – Rebateu Julie.

-- Também adoro os casamentos dos contos. A beleza de uma relação eterna, fantástica e impossível. Não é uma pena que nenhum rei bem-sucedido de Arton tenha uma rainha assim a seu lado? Eu conheço os pecadilhos de minha própria mãe, e não há mais que uma rainha tão grandiosa em toda Arton.

-- Há muito mais diferenças entre mim e minha irmã do que imaginas, Lenneth.  – Continuou Sarah -- Mas eu dominei as complexidades da nobreza de meu povo. Conhecer as casas de Arton não é mais que meu trabalho.

-- Com o afinco que estudas, Sarah, creio que em pouco tempo você vai estar me ensinando... -- Disse Lenneth rindo.

-- É meu dever, Lenneth. E eu tenho pouco tempo para cumpri-lo, e muito em jogo para perder.

Enquanto isso, o embate entre Alexia e Julie continuava.

-- Não sei nada sobre os pecadilhos de sua mãe, lady Alexia. Esse é o tipo de afirmação que pode causar mais do que problemas para a casa de vosso pai, querida. Como uma nobre, é seu dever preservar pelo nome de sua família. -- Julie estava completamente focada em acabar com o nariz empinado daquela mulher.

-- Pensei que poderia confiar na discrição e honra da princesa de Bielefeld. Se estiver enganada, que fazer? Seria uma lástima que minha mãe, a Rainha dos Cavalos, tivesse que se defender contra a infâmia apenas com sua palavra. Afinal, que peso teria a palavra de minha pobre mãe contra a sua? - Alexia sorria para Julie com a doçura de uma princesa, enquanto destilava as palavras como veneno da víbora que lhe valia de alcunha.

-- Claro que não está enganada, querida. A honra é uma das coisas mais prezadas em Bielefeld. O que eu digo é que podes acabar falando coisas que podem acabar com a reputação que tão fortemente vossos pais e irmãos tanto trabalharam para criar. Já imaginou, ser arrasada por um mero capricho?


-- Quer continuar a assistir a briguinha, ou quer que eu acabe? – Disse Lenneth já sem paciência para a briga das duas, quase que pedindo por uma briga -- Por favor, diga que quer que eu acabe...

-- Não creio que precisemos intervir. As duas já se alfinetaram o suficiente. É o trabalho dos nobres, afinal, se testar sem usar a força, para que seus guerreiros sejam poupados para batalhas mais importantes. Já imaginou se elas duas decidissem resolver suas diferenças jogando as vidas de seus soldados fora, ou até as próprias? Por trás das palavras venenosas, Lenneth, pode estar acontecendo uma batalha tão encarniçada quanto um confronto de exércitos, e a que vemos aqui é como um treinamento de espadas, deixando as duas mais afiadas enquanto se ferem no orgulho, que se recupera mais fácil que a carne. Parece apenas mesquinharia, e de certa forma o é. Mas assim as cortes dos palácios poupam vidas e recursos na hora de definir a hierarquia dos predadores.

Alexia sorriu para Julie, cumprimentando-a, e voltou-se para Sarah. Julie simplesmente ficou sem ação ao ouvir as palavras da Sarah. Por mais que ela odiasse a rameira da Alexia, não podia deixar que tal situação acabasse daquele jeito. Ela ficou quieta por um instante, olhou para Alexia e sorriu de volta, fazendo uma mesura para a prima. Em seguida, virou-se para as duas que conversavam alegremente e estranhou o modo de falar da garota, que estava completamente diferente de antes.

-- Houve alguma coisa que lhe fez pensar diferente, lady Kathrine?

-- Julie, querida. – Alexia respondeu avidamente - A menina disse instantes atrás, em alto e bom som, que é Sarah, irmã gêmea de Kathrine. Imagino que pensamentos graves e importantes lhe passavam pela cabeça, se não pôde ouvir as palavras dela...

-- Por favor, Alexia. – Lenneth já estava sem paciência para aquilo e, por mais estranho que parecesse, queria que aquilo acabasse -- Já não passou da hora para isso? Eu já estou com raiva o suficiente para não ter que aturar mais dessa baboseira. Se querem se xingar, podemos abrir um espaço lá na justa ou na liça para as duas. Já estou de saco cheio dessa frescura!

-- Não se preocupe, lady Julie. E tenho minhas próprias razões para discordar do modo de pensar de minha irmã. Ela não tem obrigações imediatas, nem preocupações além das que ela própria inventa para si. E se eu fizer meu trabalho direito, ela nunca terá. E peço, lady Silloheron, que guarde para si o comentário que vejo se formar em seus lábios. Posso compreender essa situação melhor que Lenneth, mas se prosseguirmos nesse tom, eu vou ficar nervosa...

-- Não poupe sua irmã. Isso seria um equívoco para com sua família e para com seu povo. Uma rainha não se firma apenas na própria força, ninguém pode carregar o peso do mundo inteiro nas costas. Nem Thormy pôde. Fie-se em sua família, na lealdade de seus aliados e no amor de seu povo. --E virando-se para Julie, Alexia acrescentou -- É assim que age um rei, ou uma rainha, e não de outra forma.
Elas engoliram seco as palavras da Alexia. Por mais que quisessem negar, ambas parecia saber que ela estava certa e isso deixou Julie furiosa., por mais que ela quisesse negar, o medo começou a falar coisas na mente da Lenneth.

-- Rainha? -- Ambas questionaram.

-- Pelo que eu saiba, Sarah, você é uma duquesa. Ou será que sei de pouca coisa? -- Questionou Lenneth a prima.
A menina parece ficar um pouco sem graça, mas sem perder a compostura. Ela deixa que sua tutora do momento faça as honras da apresentação adequada, que ela tivera por algum tempo a esperança de evitar.

-- Princesa Julie, Duquesa Donovan... – Alexia se pôs a fazer as devidas apresentações -- esta é Sua Majestade, Sarah I, Rainha dos Uivadores Brancos, Regente da Nação Garou, e representante dos Refugiados em Namalkah. Última filha de um mundo morto, como Arton será se a Tormenta tomar a tudo e a todos.

Lenneth não podia imaginar que uma menina de tão pouca idade já tomava pra si tanta responsabilidade. As duas nobres de Norm ficaram realmente surpresas com a apresentação dada por Alexia. Porém, por mais impressionante que parecesse, Lenneth pode ver que a Sarah estava numa situação bem parecida com a dela e, por mais estranho que fosse, causou um alivio na paladina.

-- Então creio que não somos tão diferentes, majestade. Agora compreendo sua tão feroz busca por conhecimento da nobreza local. Parece que você vai precisar de muita ajuda. Por sugestão, diria que falasse com lady Emilly e lady Luthien Von Heller. Elas me ajudaram bastante. Se não fosse pelo que elas fizeram por mim, creio que já teria arrancado alguns dentes...

-- Vários, prima. Vários... – Disse Julie rindo

-- Incluindo os nossos... – Alexia completou a piada.

-- Não é pra tanto. Dá pra parar com as piadinhas?

-- Acho que Norm seria conhecida como "A Cidade sem Dentes" -- Disse Julie rindo mais ainda.

-- Procurarei essa ajuda. Obrigada, Lenneth. As vidas de meu povo e de minha família não dependem apenas de mim, mas ainda assim, um deslize meu pode lhes custar muito. E não escute de todo o discurso individualista de minha irmã. Ele vale perfeitamente para um plebeu, mas não para políticos. Eu escutei sua conversa. Dizem que tenho a audição tão boa quanto a de um lobo.... Você pode, Lenneth, traçar um caminho próprio, e desafiar os costumes de seu povo, não tenha medo disso. Os meus reconhecem esse papel, o chamam Ragabash. Mas ainda assim, não esqueça tuas obrigações. Sua vida não é apenas sua, como a minha não é apenas minha. Mas talvez eu possa ajudar com sua ira. Eu sei o que é carregar um caldeirão de cólera no peito, acredite em mim, e estudei como aplacar e direcionar a fúria. Não creio que a sua seja comparável à minha, se me permite ser sincera...

-- Realmente. Não tem nem como comparar... – Completou Alexia.


Na noite de véspera do casamento, acontecia um enorme e belo baile fechado para os convidados mais nobres e ilustres do evento. A princesa Julie Janz, de Bielefeld, estava dançando desanimadamente pelo grande salão iluminado com um coronel yudeniano que falava de si como se fosse a pessoa mais importante do mundo. E o fato de ser um preguiçoso que não mexia uma palha para quase nada, o deixava cada vez menos interessante. Também era incômoda sua insistência em falar "discretamente" o quão Roy Mustang era desagradável como Führer de Yuden. A noite de Julie já começara mal...
Poucos instantes após terminar a dança, Julie fez uma mesura ao coronel e rapidamente o despistou, tentando arrumar um local seguro. Pôde ver sua prima Lenneth indo até a sacada tomar um pouco de ar. Ela estava pálida naquela noite e parecia estar enjoada.
"Deve ser nervosismo", pensou ela enquanto seguia a prima.

Ao chegar na sacada, ela pôde ver sua prima conversando ao longe com uma pessoa completamente encapuzada, a qual entregou algo na mão da paladina de Khalmyr. Enquanto Julie se aproximava da sacada, não percebia a chegada de Alexia Silloheron. Ela só notou Alexia quando ouviu sua voz.

-- Noite bonita, não concorda, Julie? – Disse Alexia sorridente.

Julie tomou um susto ao ver a odiada prima. Agora ela tinha certeza de que a noite estava ruim. Mas não seria ela a fazer espetáculo para tal mulherzinha.

-- Está sim, prima. Acredito que esse não é um lugar para alguém como você. Deveria estar lá dentro do baile, dançando com as outras pessoas.

-- Estava um pouco cansada. Vim tomar um ar aqui, de onde posso ver a dança de Lady Claire Homingbird. É adorável, não é?

-- Não tanto... Ela é do tipo de pessoa que logo ficará mal falada. Esses tipos nunca conseguem bons maridos.

-- Não conseguem... ou não deveriam conseguir? Porque, até onde eu sei, lady Claire tem uma lista de pretendentes bastante respeitável em sua qualidade... Talvez até se torne uma rainha, pelo que eu sei...

-- Duvido. Isso são só histórias. Estou certa de que já a devem ter encontrado num canto com as vestes levantadas...

-- Pelo que eu soube, ela está cotada para casar-se com Allan Dusseldorf, arquiduque de Zakharov e, dizem, o maior vassalo daquele reino, quiçá de todo o Reinado... Não importa em quantas tavernas a encontrem bêbada e nua, se ninguém falar, nem der ouvidos.

-- Os boatos correm, querida. Tanto quanto os sobre vós...

-- Decerto, querida, não se pode confiar nas palavras de qualquer um. Apenas digo porque entreouvi uma conversa do próprio Imperador Dragão de Tamura. É formidável o tipo de gente que se pode ouvir fofocando neste evento, mas não que isso torne suas palavras mais confiáveis que as da plebe, claro...

-- Mas sabes como a nobreza pode acabar com qualquer uma apenas com um boato, mesmo ele sendo inverídico.

-- Certamente, meu doce... os boatos podem fazer ou destruir qualquer uma de nós... Mas não vejo ninguém falar nada de lady Claire, e até agora ela se tem mantido inatacável. Terá um bom casamento com quem quer que seja, diferente de minha irmã Alicia, por exemplo, que já tememos morrer sozinha...

-- Lady Claire? Inatacável? Ela não merece alguém do porte de lorde Alan. Não alguém tão mentirosa e falsa quanto ela!

-- Sinto muito, meu amor... Mas é como as coisas vão se desenrolar, se ninguém intervir. O que deveria, afinal, acontecer a lady Claire?

-- O que acha? O mesmo destino de mulheres daquele tipo! O pior possível!!

-- Eu me pergunto qual seria o pior destino imaginável para alguém que vós considereis tão baixa, minha prima. Se tua augusta opinião é esta, não seria próprio para lady Claire nada melhor que estar acorrentada a um verdadeiro monstro pela eternidade... Estaria certa?

-- E existe algum destino diferente deste?

-- Bem, minha prima... não digo se concordo ou não com vossas palavras, mas tenho que ir agora. Muitos assuntos demandam minha atenção neste baile, mas voltarei para conversar contigo mais tarde. Aproveite vossa noite, tenho certeza que será maravilhosa...

Alexia se afastou de Julie e se embrenhou entre os convivas. Havia muito a fazer, pessoas com quem conversar, cordas a puxar, favores a cobrar. Quando terminasse, teria todas as peças no lugar para seu próximo plano, e de brinde, sua vingança contra Julie...

Durante as horas seguintes, Julie não teve mais nenhum contratempo. Os cavalheiros que a tiraram para dançar não eram apenas bons dançarinos e de conversa agradável, ela teve no baile oportunidade de dançar com alguns dos pares mais formidáveis que poderia ter sonhado. Deslizar pelo salão na companhia de heróis como os Libertadores de Valkaria foi apenas o começo, ela pôde literalmente sentir os pés saírem do chão enquanto era levada nos braços de um anjo de Khalmyr. Teve até mesmo uma conversa imensamente agradável com um rapaz que lhe arrancava suspiros de satisfação apenas com o sorriso.

Na verdade, ficou tão encantada pelo rapaz, embora soubesse que não era a única, que o seguiu por um tempo à distância após a dança. Em uma sala mais reservada, onde haviam esquecido a porta aberta, ela pôde ver o rapaz encontrar-se com o mesmo coronel que ela havia tido o desprazer de começar a noite. Os dois conversavam absortos em um idioma estranho e nefasto, que a fazia passar mal e embrulhar o estômago. Deviam ser yudenianos, ela já desanimando do jovem ao imaginar que coisas desagradáveis deveriam estar conversando...

Quando achou que já tinha o suficiente daquilo, Julie ainda viu algo mais acontecer. Não houve qualquer mudança no tom da conversa, e as vozes eram as mesmas ainda. Mas agora o coronel não falava com um ser humano. No lugar do dançarino que mais a encantara estava o monstro mais desgraçadamente hediondo naquele evento em sua opinião. O próprio senhor das hordas infernais, Lorde Abbadonn... Não tinha como haver, ela pensou, melhor definição de um verdadeiro monstro... ele e o coronel, que se prestava a tal papel, terminando a conversa com uma reverência ao arauto de tudo que é desprezível neste mundo, o Corruptor da Ordem e de toda a pureza...

Ela já não estava mais lá quando saíram, mas ficava no ar que planos terríveis haviam sido tramados, e que surpresa desagradável a esperaria esta noite antes de seu fim...

Assustada enquanto voltava para o salão, Julie procurou logo a noiva, sua prima e único cavaleiro em quem confiaria para sentir-se segura diante de uma ameaça tão grande a todos no baile. Não importava o quanto as bênçãos dos deuses davam a todos a segurança mesmo com a presença da encarnação do mal em Arton, vê-lo em sua plena glória infernal era demais para a nobre.

Não se passou muito depois disso, a família Homingbird fez um anúncio para a corte de Bielefeld, e os convivas que se interessassem. Para o horror estampado por um instante na face de lady Claire, ainda que logo substituído por um sorriso falso como Tibares de Alumínio, foi anunciado seu casamento em breve com o mesmo coronel velho e desagradável. Não só isso, como Julie podia ver a satisfação estampada na face encantadora do homem que agora ela sabia ser a Besta Abominável dos Nove Círculos do Inferno...

Julie estava horrorizada com o que vira e contou tudo à Lenneth, que ouviu tudo como quem ouve uma sinfonia, tamanha a vontade de bater em qualquer coisa. A paladina de Khalmyr pediu rapidamente para a prima se acalmar e seguiu em direção ao coronel já estalando os dedos, sinal que ela geralmente fazia quando iria quebrar tudo. Julie viu o sorriso de Abbadon se alargar como se recebesse um presente surpresa, conforme Lenneth atraía olhares com sua aproximação nada sutil. Ela iria fazer a coisa mais idiota em uma situação como essa, e ser a primeira a quebrar o protocolo. Julie havia, de forma certa e definitiva, estragado tudo...

O alívio parcial veio quando Julie notou Lenneth parar diante de uma sombra. Passou-se um instante antes que notasse se tratar do herdeiro do trono de Namalkah, Alexander Silloheron V, que se interpôs na frente da paladina, falando-lhe algo ao ouvido. Lenneth estava furiosa quando viu que havia algo em sua frente, e ouviu a voz de Alexander.

-- Se atacares este coronel aqui, por qualquer que seja teu motivo, não impedirás nenhum ganho dele, pelo contrário. – Interrompeu Alexander a passagem da paladina -- Convença-me que tua razão para esta atitude demanda tanta urgência, e eu mesmo o matarei agora. Mas se algo menor que o destino de toda uma nação estiver em jogo, então não destrua tua reputação política dando cabo de um coronel de Yuden que está em vossa casa, sob vossa hospitalidade...

-- Vou dar um pouquinho de hospitalidade bem no meio da cara dele... -- Disse Lenneth

-- Lembra-te que estarás desafiando até mesmo as vontades irregulares e paradoxais dos extraplanares metidos que lhe são tão caros... Se conseguires superar a magia baixa de Khalmyr, Marah e Lena, ainda terás que lidar depois com a ira combinada dos três chiliquentos...

-- Nunca saberemos se eu não tentar... Saia da minha frente, Alexander, preciso extravasar um pouco!!! -- Disse ela com os punhos cerrados e fazendo as asas aparecerem

-- Conte-me o que houve, estimada prima... ao menos seja justa em declarar o crime pelo qual estás prestes a executá-lo... não é este o modo dos servos de Khalmyr? Ou prefere que todo o baile veja apenas que a noiva assassina seus convidados sem piedade ou explicação?

-- Aquele homem é acusado de tratos com o maior dos diabos. Então saia da minha frente, que eu tenho mais o que fazer. Justiça está encrustada nessas sagradas paredes, primo. Então, nada mais certo que Justiça seja feita hoje.

-- Lenneth, se você o está acusando de trato com um diabo, e está correta, então tudo o que esse diabo mais vai querer é que você ataque aqui dentro e prontamente seu servo. Pare com isso e aguarde sem sujar as mãos e a reputação da futura rainha de Bielefeld. Quando ele deixar esta festa, depois de amanhã, estará ao alcance das garras do Príncipe Sombrio. Destas, ele não escapará. Jamais!

-- Não me importa. Enquanto eu não for rainha, sou uma Guardiã. E, como tal, é meu dever acabar com essas ameaças ao povo de Arton.
Alexander soltou um suspiro exasperado com a teimosia de sua prima, e deu um passo para o lado. Antes que Lenneth achasse que tinha o caminho livre, viu que ele apenas cedera lugar à outra pessoa. Mayra, a Paladina de Lena e filha de Keen, era quem se punha no caminho de Lenneth agora.

-- Por todos os deuses, Lenneth... o que caralhos você pensa que está fazendo!? – Disse Mayra

-- Justiça, irmã!

Alexander apenas se afastava sinalizando cansaço.

-- Comece do início e seja breve, defenda sua acusação. – Pediu gentilmente a filha de Keen.

-- Não tenho tempo para tanto, irmã. Aquele homem é acusado de tratados com o maior dos diabos. Tratados esses que vão levar a doce lady Claire Homingbird cair em desgraça e corrupção.

-- Isso é grave, mas não urgente. Me dê um motivo para não ter tempo, e me diz qual a prova das acusações, assim como a pena que pretende aplicar. Ou vai parecer a todos que você assassinou sem motivo, um homem que deveria estar sob sua proteção. Não creio que Khalmyr, que deu a Arton juízes e tribunais, aprove uma execução sumária em base de acusações vagas. Ainda que esteja certa, e tenha provas, parecerá um ato bárbaro aos olhos de toda a nobreza que está aqui, e você lançará Bielefeld na maior crise diplomática desde que a Ordem da Luz quase caiu inteira para a Tormenta. Se estiver errada, mesmo que esse homem seja culpado, então você será de fato o monstro que te acusarão. E talvez da próxima vez não nos encontremos mais em campo de batalha como irmãs de chamado. Serás, na melhor das hipóteses, uma mercenária ou uma justiceira louca. Talvez minha adversária. Não quero ver sua queda aqui e por tão pouco... Fale o que te dá tanta certeza e tanta urgência. Ou tenha um ótimo motivo para pagar um preço tão alto. Eu não te impedirei, confiarei no seu julgamento...

-- Tens certa razão, irmã -- Disse ela tentando disfarçar algo que trazia consigo na mão e um pequeno enjoo.

-- Vamos, Lenneth... vamos para um lugar em que possamos conversar...

Mayra levou Lenneth pela mão para outra sala, aliviada que a confusão não houvesse terminado em morte... Alexander saiu resmungando, meio consigo mesmo.

-- Ninguém escuta o cronomante... mas é só vir a paladina de 2 metros de altura repetir tudo o que eu disse para acalmar a Pulga de Ferro e seu ataque de estrelismo...

Julie podia, de alguma forma, ouvir parte do que eles disseram, o suficiente para entender o que aconteceu. Por Khalmyr... se Lenneth houvesse escutado apenas a ela, Julie seria agora a responsável por uma desgraça de proporções que ela mal podia imaginar... E talvez nem isso salvasse lady Claire... graças a Khalmyr e sua infinita sabedoria, Alexander intervira a tempo para impedir que se sucedesse o pior...

O resto do baile apenas viu o ímpeto da noiva e sua calma retornar com a conversa com os outros dois. Voltavam a suas conversas e suas danças, cheios de assunto para o resto da noite. Lenneth cometera uma gafe grave, mas nada tão catastrófico. Agora era esperar que o erro de Julie não custasse ainda mais à prima, e ao seu reino...

A princesa ainda não podia acreditar no que via. Ela estava paralisada diante de tal situação. Por ter tentado ajudar, quase que piora tudo para a detestável da Claire, para a Lenneth e, possivelmente, para si mesma. Pelo modo como ela viu tudo, Julie tinha quase certeza de que eles sabiam que ela sabia e que, após a situação da prima, tinham plena convicção de agora sabiam e que viria retaliação. E isso a deixou em pânico.

A voz de Alexia vem repentina já em seu ombro, fazendo com que Julie quase saia do corpo de tanto susto. O mais assustador, no entanto, era a calma e segurança daquela voz cheia de perfídia.

-- Que ótimas notícias, não, lady Julie? Para você, para minha irmã, e para mim mesma. – Alexia começou a destilar seu veneno.

-- Não... não... não isso... – Julie estava aterrorizada.

-- Que foi, prima? Parece assustada? Não teve tudo o que desejavas?

-- Eu... Eu não desejava isso... não isso...

-- Você não disse que lady Claire merecia estar acorrentada pelo resto da eternidade a um verdadeiro monstro? Não creio que haja monstro mais verdadeiro que aquele a quem o coronel pretende sacrificar a alma da futura esposa... Ela terá a punição que lhe cabe, e minha irmã o caminho livre para alguma esperança.

-- Eu não disse nada disso, sua víbora!!! Nunca quis nada disso para ela -- Disse ela já tremendo

-- Eu apenas repito suas palavras, prima. Se a mentira é um hábito que tens adquirido, digo que lhe cai muito mal... Você disse o que achava de lady Claire, e de qual deveria ser a punição adequada para mulheres como ela... desejas o mesmo para mim, não desejas?

-- Eu não desejei nada disso! Só disse que era o destino de mulheres que agem de forma errada!! Não ponha palavras na minha boca! Nunca que eu iria querer tal destino para ninguém!

-- Diga o que quiseres, prima. Seja sua consciência e teu deus os únicos juízes de tuas palavras. De minha parte, teria o mesmo resultado se qualquer nobre de vosso reino houvesse se aliado a um oficial de Yuden que more na vila de Blitzkrieg... Mas é assim quando se tenta fazer um favor para uma prima. Não intervirei mais em teus desejos, nem ouvirei tuas palavras desperdiçadas tão levianamente para teu posto. Afinal, sois uma possível futura rainha. E toda palavra de uma rainha é lei. Mas tua lei será bem fraca, se voltas atrás com ela. Se me dá licença, eu tenho mais o que fazer que perder meu tempo com quem me chama de mentirosa para não admitir o que fez.

Alexia não deu um segundo para que ela pudesse pensar numa resposta. Sabia o que viria a seguir, e apenas se afastou com ar de insultada. Tinha a um só tempo mostrado a Julie o que era capaz de fazer, e feito dela cúmplice em um crime que sabia, para a prima, não tinha perdão.

-- Por favor. Não deixe isso acontecer, prima! -- Disse Julie segurando o braço de Alexia, em claro desespero

Alexia virou-se para a prima com o olhar frio e cheio de desprezo.

-- Me chamas de víbora, de baixa, de rameira. Falas mal de mim pelas minhas costas, mesmo sendo tua prima. Acabas de me chamar mentirosa sem que haja ninguém aqui para enganar além de a si mesma... Vens agora pedir-me ajuda? Para quê? Para salvar tua hipocrisia? Desejas de verdade tudo aquilo para aquela menina, cujo único crime foi não crer em teu mundo de contos de fadas. E pela mesma razão, me odeias. Desejas o mesmo destino a mim. Só porque me deito com teu irmão, a quem nunca forcei a nada, de forma alguma, mas veio porque quis. Killiah é senhor das próprias decisões. Como a decisão de me fazer juras de amor eterno, e me propor casamento. Mas certamente a vadia que merece ser adestrada pelo próprio senhor dos diabos sou eu, enquanto aquele hipócrita se casa com uma nobre de importância maior que a minha. Tua família perfeita me abandonou, e o último desses abandonos foi tu. Não me peças ajuda. Não quero ter mais nada contigo ou com tua laia.

Alexia soltou o braço da mão de Julie e se afastou com lágrimas nos olhos, arrasada e traída. Sua vingança estava quase completa. A princesa ficou completamente sem ação, com lágrimas nos olhos, apenas vendo sua prima sair correndo. Sentindo-se a pior das mulheres por ter desejado tal destino a alguém, a garota apenas virou-se na direção oposta da Alexia e saiu correndo, procurando um lugar para esconder-se e chorar sem ser vista.

Alexander Silloheron adentrou o quarto em que Julie se escondera, silencioso como de costume, mas não a ponto de assustá-la, e se sentou ao seu lado.

-- Eu ouvi o que conversou com minha irmã. Como você está se sentindo agora com o que fez?

-- Não foi minha culpa, Alexander... Não tinha como eu saber!!! Nunca que eu desejaria tamanha dor a outrem... Se eu pudesse, nunca desejaria tamanho mal a ninguém. Nunca mais!

-- Você foi leviana com suas palavras a um inimigo político que você ganhou sem necessidade, por suas próprias ações e palavras. Alexia procurou um jeito de te atingir, e você se permitiu usar facilmente. Uma vida foi prejudicada pela leviandade de suas atitudes. Não é de hoje que machucas o coração de minha irmã com tuas bravatas. Minha irmã não é perfeita. Ninguém é. Nem tu. Não tens o direito de julgá-las como o fez, e ela respondeu como é de sua natureza. Mas não aceites toda a culpa que Alexia lhe imputa. Você foi tola, mas não maldosa. Falaste levianamente, mas não desejaste de teu coração. Minha irmã fez de propósito. Tens culpa, mas também a chance de te redimir. Teu erro foi apenas a ignorância. E não te preocupais, não está além de meu poder remediar a situação. Lady Claire não viverá sob o julgo de Abbadon, ela terá um marido que a tratará com gentileza. Penso se seria adequada como esposa para meu irmão Kall-El.

-- Como posso me redimir?

-- Se torne a melhor rainha para quando seu povo precisar. Estude. Aprenda. Desapegue de convicções pueris e aceite nossos nobres, nossos heróis e nosso povo como eles são, pois esta é Arton. Alexia não é o pior que você vai encontrar, é só uma política habilidosa. – Disse Alexander colocando a cabeça da prima chorosa no seu colo -- Seu conhecimento e perícia podem ser usados para grande bem ou grande mal, mas por trás deles está apenas uma mulher, com anseios, necessidades, defeitos e medos como qualquer outra. Como você. Foi ela quem impediu que teu destino fosse casar com Lucian. Não imagine por um instante que sejas feita para viver ao lado de um meio-dragão metido a aventureiro em tempo integral. Ele não pretendia parar em casa ou deixar de se deitar com cada donzela que salvasse, ou meretriz que pudesse pagar, esperando sempre que em casa estivesse uma esposa a postos para fazer cada uma de suas vontades sem questionar e manter seu lar enquanto estivesse longe de novo. Lucian é um herói, mas tem a cabeça muito voltada para seu próprio mundo e sua própria extraplanar metida a merda para perceber o efeito de sua atitude sobre aqueles que o esperam em casa. Não faria por mal, mas te faria infeliz. E Alexia foi quem se condoeu de ti. Quem percebeu o que aconteceria, quando todos nós achávamos que você o seguraria em casa. Por mais que as lágrimas que lavam o rosto dela agora sejam como as dos crocodilos, no fundo é para disfarçar para si mesma que a dor que sente é real. Alexia teve carinho por você. Pense no que vai fazer antes de machucar mais uma vez quem só lhe quis bem.

-- Vou tentar, Alexander. Por mais que eu não seja como vocês, mas tentarei melhorar. Mas, por favor, proteja lady Claire. Nunca quis o mal dela...

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